Era
um tipo de irritação comedida. Como quando um carro derrama umas gotinhas da
poça de chuva bem em cima do seu all star. Ou quando você chega em casa
pensando que ainda tinha um pouco da sobremesa de domingo. É ruim, mas não é
caso de sair gritando.
Muito
embora fosse uma situação que aborrece, essa de verificar por ∫n que você
estava errada, e a outra pessoa certinha, e ainda com aquele sorriso finito no
canto da boca, de satisfação em acertar o erro de alguém. Não era por mal,
óbvio. E o que aconteceu era óbvio pelos olhos dos outros, há uma autodesconfiança genuína nas meninas de
meias até os joelhos; não por causa das meias, mas justamente por causa
delas.
Alice.
Teve que mudar de nome. Porque ficara mais formal, mais conveniente (mais
conivente?), mais metida com negócios e tímida, também. Falava sempre firme e
serena, sem a dignidade ferida de outrora, que lhe inflamava a garganta – "sem
berros dessa vez, Alice". Dependendo de quem, até poderia quebrar o silêncio com
alguma observação fora de hora, mas quase nunca fazia isso; era calada no que
mais lhe permitiam. E aprendeu a recusar algumas noites de orgia desconhecida
por um tipo de rotina que se repetia e que nunca era igual. Não tinha nada a
ver com rotina, então, pensou, era um compromisso. E, ao invés de crer no
óbvio, preferiu acreditar na morte – quase como uma defesa.
A
carta de Natal não foi escrita. Certamente não era para o Velho Noel, mas ela
pensava que era, porque fazia pedidos e promessas. Todos baseados no seu latino
comportamento; não dá para escapar muito disso com um sobrenome como o dela.
Era uma carta de agradecimento, também, e mais que isso, era carinho, era
design, era criatividade, era cheirinho de baunilha, mas sem beijos. Coisa mais
nojenta que marca de batom? Não houve carta. Tinha medo de ser lida -
Escrever
é matéria pesada. Cada palavra tem o valor vazio de cada palavra. Aos poucos
você vai aprender o valor das palavras vazias, mas isso é com o tempo. Não dá
para acreditar naquilo que você vê, que você lê: quem é que vai decidir sobre o
significado final e colocar a música como pano de fundo das horas que não
passam? Ou se passam, voltam; passam ao reverso. As palavras incriminam. Às
vezes, ela pensava, que o ato de escrever é a única maneira de transformar o
óbvio.
A
nudez, as máscaras no chão, os cabeças sem rostos, desfiguradas, andando a ermo
em meio ao que não se podia ver. Os olhos tinham ficado nas máscaras caídas no
palco. Dava uma certa tensão, sem poder olhar a reação da platéia. Esperar por
palmas ou vaias? De uma forma ou de outra, todos os atores dariam as mãos no
final e fariam um gesto de reverência. É... pensando bem, a reação da platéia
não importa tanto assim. –
Era
suficiente que uma pessoa habituada a reconhecer máscaras caídas, ou faces
desfiguradas, para que Alice ficasse com medo. Das palavras. Nunca se sabe se
uma palavra está indo ou vindo, era mais dificil lidar com elas do que com os
rostos sem faces.
De
frente para a penteadeira, enquanto eu mesma enrolava as mechas do seu cabelo,
um cheiro de canela veio ao ar. Um cheiro de gueixa, de mercado de peixe, de
perfume de morango, e todas essas coisas irritantes. Ela não falou nada, mas
naquele momento o Tempo passou mais devagar – ela pensou que eu não vi, mas
ficou um bocado de tempo observando o filme que passava dentro dos seus olhos
pretos. Sutilmente, porque agora era moça comedida, como eu disse, uma lágrima
se formou. Eu também sabia, mas havia outra pessoa.
Nunca
se está completamente curado de nada. As cicatrizes, as manias, as formas de
resolução, são sempre marcas de que alguma coisa se passou. Uma ferida de
espadas pode doer depois de anos, sempre que um pensamento referente a isso
ocorrer. De fato, ninguém sai ileso de nenhum tipo de perturbação desse mundo; e
todos estamos sujeitos a isso. Ela pensou que estivesse curada e que o retorno
à decomposição das cores seria sublime, mas ela sempre se esquece de que a maioria
das coisas mágicas traz uma forma de solidão. Veja bem, você está diante das
mais belas obras de arte, dentro do castelo do Rei dos Contos de Fada, dia de
festa da corte, mas aos poucos, conforme passa pelos corredores infinitos, vai
percebendo o quanto de solidão tem tudo o que toca você – e tudo o que você
pode tocar. Contrariado, você entra em um quarto em que a luz tinge de azul a
sua roupa de gala. Qual era mesmo a cor original? Os botões que pregavam os
quadros na parede também tinham sido esquecidos.
Bem
que podia ser um sonho, pensou, porque ela já tinha sonhado isso várias vezes
antes, mas dessa vez não era real e o dormitório inteiro derretia, exceto a
cadeira e o metro quadrado em volta dela. E qual o sentido de tudo isso?,
pensou. Eu digo, eu digo: você se dedica, se apresenta, se torna realmente
parte de tudo o que antes era parte dele... para aos poucos, acontecer de
derreter.
Enquanto
escrevia a carta de Natal, o tempo congelado derretia. Você já recebeu um
presente de Natal sem carta? Não, não de Alice. E ela rasgou a carta em pedaços
que poderiam atravessar o buraco de uma fechadura.
1 comentários:
Esperanças de presentes sem cartas ainda existem.
Malditas cartas, maldita caligrafia, malditas palavras.
Postar um comentário