28 Dezembro 2011

"Viu só?"



Era um tipo de irritação comedida. Como quando um carro derrama umas gotinhas da poça de chuva bem em cima do seu all star. Ou quando você chega em casa pensando que ainda tinha um pouco da sobremesa de domingo. É ruim, mas não é caso de sair gritando.

Muito embora fosse uma situação que aborrece, essa de verificar por ∫n que você estava errada, e a outra pessoa certinha, e ainda com aquele sorriso finito no canto da boca, de satisfação em acertar o erro de alguém. Não era por mal, óbvio. E o que aconteceu era óbvio pelos olhos dos outros, há uma autodesconfiança genuína nas meninas de  meias até os joelhos; não por causa das meias, mas justamente por causa delas.

Alice. Teve que mudar de nome. Porque ficara mais formal, mais conveniente (mais conivente?), mais metida com negócios e tímida, também. Falava sempre firme e serena, sem a dignidade ferida de outrora, que lhe inflamava a garganta – "sem berros dessa vez, Alice". Dependendo de quem, até poderia quebrar o silêncio com alguma observação fora de hora, mas quase nunca fazia isso; era calada no que mais lhe permitiam. E aprendeu a recusar algumas noites de orgia desconhecida por um tipo de rotina que se repetia e que nunca era igual. Não tinha nada a ver com rotina, então, pensou, era um compromisso. E, ao invés de crer no óbvio, preferiu acreditar na morte – quase como uma defesa.

A carta de Natal não foi escrita. Certamente não era para o Velho Noel, mas ela pensava que era, porque fazia pedidos e promessas. Todos baseados no seu latino comportamento; não dá para escapar muito disso com um sobrenome como o dela. Era uma carta de agradecimento, também, e mais que isso, era carinho, era design, era criatividade, era cheirinho de baunilha, mas sem beijos. Coisa mais nojenta que marca de batom? Não houve carta. Tinha medo de ser lida -

Escrever é matéria pesada. Cada palavra tem o valor vazio de cada palavra. Aos poucos você vai aprender o valor das palavras vazias, mas isso é com o tempo. Não dá para acreditar naquilo que você vê, que você lê: quem é que vai decidir sobre o significado final e colocar a música como pano de fundo das horas que não passam? Ou se passam, voltam; passam ao reverso. As palavras incriminam. Às vezes, ela pensava, que o ato de escrever é a única maneira de transformar o óbvio.

A nudez, as máscaras no chão, os cabeças sem rostos, desfiguradas, andando a ermo em meio ao que não se podia ver. Os olhos tinham ficado nas máscaras caídas no palco. Dava uma certa tensão, sem poder olhar a reação da platéia. Esperar por palmas ou vaias? De uma forma ou de outra, todos os atores dariam as mãos no final e fariam um gesto de reverência. É... pensando bem, a reação da platéia não importa tanto assim. –

Era suficiente que uma pessoa habituada a reconhecer máscaras caídas, ou faces desfiguradas, para que Alice ficasse com medo. Das palavras. Nunca se sabe se uma palavra está indo ou vindo, era mais dificil lidar com elas do que com os rostos sem faces. 

De frente para a penteadeira, enquanto eu mesma enrolava as mechas do seu cabelo, um cheiro de canela veio ao ar. Um cheiro de gueixa, de mercado de peixe, de perfume de morango, e todas essas coisas irritantes. Ela não falou nada, mas naquele momento o Tempo passou mais devagar – ela pensou que eu não vi, mas ficou um bocado de tempo observando o filme que passava dentro dos seus olhos pretos. Sutilmente, porque agora era moça comedida, como eu disse, uma lágrima se formou. Eu também sabia, mas havia outra pessoa.

Nunca se está completamente curado de nada. As cicatrizes, as manias, as formas de resolução, são sempre marcas de que alguma coisa se passou. Uma ferida de espadas pode doer depois de anos, sempre que um pensamento referente a isso ocorrer. De fato, ninguém sai ileso de nenhum tipo de perturbação desse mundo; e todos estamos sujeitos a isso. Ela pensou que estivesse curada e que o retorno à decomposição das cores seria sublime, mas ela sempre se esquece de que a maioria das coisas mágicas traz uma forma de solidão. Veja bem, você está diante das mais belas obras de arte, dentro do castelo do Rei dos Contos de Fada, dia de festa da corte, mas aos poucos, conforme passa pelos corredores infinitos, vai percebendo o quanto de solidão tem tudo o que toca você – e tudo o que você pode tocar. Contrariado, você entra em um quarto em que a luz tinge de azul a sua roupa de gala. Qual era mesmo a cor original? Os botões que pregavam os quadros na parede também tinham sido esquecidos.

Bem que podia ser um sonho, pensou, porque ela já tinha sonhado isso várias vezes antes, mas dessa vez não era real e o dormitório inteiro derretia, exceto a cadeira e o metro quadrado em volta dela. E qual o sentido de tudo isso?, pensou. Eu digo, eu digo: você se dedica, se apresenta, se torna realmente parte de tudo o que antes era parte dele... para aos poucos, acontecer de derreter.

Enquanto escrevia a carta de Natal, o tempo congelado derretia. Você já recebeu um presente de Natal sem carta? Não, não de Alice. E ela rasgou a carta em pedaços que poderiam atravessar o buraco de uma fechadura.

1 comentários:

murilo disse...

Esperanças de presentes sem cartas ainda existem.
Malditas cartas, maldita caligrafia, malditas palavras.