03 Março 2011

Kabuki

Ela sabia todos os segredos dele. Na contenção do não-dizer, que é senão timidez inversa de principiante, tratava de conhecer o outro lado.
Seu filme predileto, os livros na estante, a tese do mestrado, a história da professora que não enrubescia, a ex-namorada, os primos que não eram de sangue, Cássia Eller e um pouco de jazz, fotografias em tom envelhecido.
Aos poucos o outro lado foi chegando mais pro lado, mais para o lado dela.

Criou-se um vínculo estreito entre eles a ponto de cada qual saber como era quando estava só, quando o outro não era senão ele mesmo, naquela parte do dia em que não se sabe muito bem se você não é mais que parte da cama.
Ela já tinha deitado na cama dele, sempre do outro lado, intocável na sua extensão, que ia de ponta a ponta e cobria os lençóis e travesseiros com o fundo doce do seu perfume que não saía.

Não saía. Não fora de saia como de costume, mas algo nela reverberava a sua personalidade, talvez as tranças no cabelo, talvez o jeito como movimentava as mãos quando dizia algo incabido e queria se justificar.
Ele não enrubescia. Não tirava do rosto aquele sorriso musical que eu, por não saber nada do ocorrido, não sei definir. Eu só sei o que ela costumava me contar antes de se mudar de vez para o lado de cima da colina, eu sei que ela tinha muita inveja de uma gueixa e usava uma fita de cetim, e uma ou outra coisa a mais que ela dizia me olhando do espelho.

Faz tempo, mas eu custo a esquecer aquelas suas visitas; eu pedia pra ela vir me visitar à noite, prestando seus serviços de donzela desmentida para a amiga desencantada. E ela fazia. Mais por dinheiro que por amizade. E eu pedia mais por amor que por necessidade. Um dia eu quis saber mais sobre o sorriso, o sorriso musical, e ela me dizia que “era indefinível para uma moça que não lia afora as grandes literaturas. Mas que, dentro da arte noturna, a qual ela imprimia em cada fio de cabelo, era como se o que tivesse sido dito não fizesse sentido a não ser para provocar aquele sorriso”. Eu não entendi. Mas gostei. Porque quando ela me contou isso, ela deu um sorriso de boca fechada e eu entendi: senti que tudo o que eu tinha dito antes não tinha mais razão que a de provocar aquele sorriso.
Mas ainda assim ela confiava suas entranhas para ele, e confiava a escolha do repertório, e as roupas do trabalho, e as cores da parede do quarto, até que chegou um ponto em que ele punha palavra dele em tudo quanto achava ser palavra dela.

Eu não sei o que motivou essa profusão de pensamentos, digo, a própria profundidade instaurada, porque eu também durmo cedo. Mas quando ela subiu de mudança, muito dela ficou nele e muito dele ficou nela. E daí quando o coração dele apertou de vez, e o coração dela apertou de vez, assim, os dois juntos, nenhum dos dois sabia muito bem o que fazer com aquelas coisas compartilhadas. Não houve briga, ou intenção de notificação, da parte dela e da dele, da mudança, das novas mudanças. Cada qual se enredou em fazer o que achava conveniente, sem precisar e nem pesar. Eu sei, mas não vou contar, que ele arrancou a saia dela, um dia antes, pendurou no cabide e colocou na sala só pra poder olhar. Embaixo, que nem se faz com quadro de museu, escrito assim:
“Vivemos na caverna de Platão. Hoje. E viveremos para sempre.”


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Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso/ São bonitas, não importa/ São bonitas as canções/ Mesmo sendo errados os amantes/ Seus amores serão bons

5 comentários:

Guilherme disse...

"Mas ainda assim ela confiava suas entranhas para ele..."

Muito bom

hajeheauheauhehuaehuahe

Parabéns Carol, sempre divina.

Anônimo disse...

num gosto

Denis Barbosa Cacique disse...

A gente lê um milhão de palavras, mas, depois do "ela confiava suas entranhas para ele", não consegue pensar em outra coisa.

Dani disse...

adorei! de vdd... =]
sua linda!

Dani disse...

ADOREI!!!
Mto bom, sua linda!!