
[Segunda parte. Aquela em que Alice se surpreendeu e sorriu.]
Se o sonho é bom, é porque é besteira, é porque é só um sonho, vai dormir que amanhã é dia de acordar cedo, menina, e vê se apaga essa luz. Se o sonho é ruim é mal agouro, é pressentimento, é tentação, é melhor tomar jeito e fazer sinal da cruz antes de dormir...
Odeio sonhos.
Quando se pensa em algo ruim, é porque certamente já está comsumado. É a lei das senhoras sensíveis e era a única lei que eu conhecia. A única. Você pode duvidar mil vezes de uma palavra, mil vezes de um presente, mil vezes de um gesto desengonçado – cada um esconde sobre si mil faces ocultas, como alguém já o disse, sob a face visível. Mas o pressentimento e os sonhos não são assim: uma afetação maquinada para arrumar as malas e prumar pro mar. Do instinto primitivo e do gênio intempestivo não posso me livrar e eu acho muito pouco provável que isso aconteça um dia, Ama.
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Não se precipite: o óbvio sempre acontece, aconselhei.
E porque era Alice, não se precipitou. Manteve-se atenta às palavras dele, esperando em cada pausa de respiração o momento em que a dor seria mais forte. Não era um julgamento, mas acataria a decisão dele, fosse ela qual fosse. E, sendo ela qual é, já tinha preparado uma roupa para ambos os casos, para ambas respostas, sem pensar que todas as respostas do mundo requerem mais do que um “sim” ou do que um “não”- não por precaução, mas assim poderia ocupar a cabeça com coisas menos etéreis.
Ela mudaria de casa se fosse preciso. E mudaria o cabelo, e as tranças, e o jeito de falar, e o nome, ela pagaria com outra identidade para ouvir. Eu sinto em dizer que as malas estavam prontas e uma despedida digna levemente arquitetada.
Era interessante tentar recompor os feitos que fizeram com que as coisas chegassem a esse ponto. Ela mesma ultimamente fazia isso com frequência, porque tinha medo de esquecê-los e ficar sem saber o motivo de tanta afetação.
Desde o momento da grande revelação, quando, no ato final (mas muito antes de as cortinas se fecharem), a atriz da companhia amarela se revelou sem talento e a improvisação não agradou a ninguém da platéia. Aquele sorriso embasbacado diante do teatro lotado, os uivos e o seu vestido em farrapos foi um deleite para Alice. Era um tipo de prazer que ela nunca tinha experimentado: “nem para uma gueixa ela serviu”, pensou. Teve pena de si por pensar assim, mas teve mais pena ainda dela, por se atrever com um tipo de gênero cênico que não dominava.
Lágrimas combinam.
Aquele dois olhos grandes prontos para chorar era demais para mim; raros os amantes que conseguem suportar firme lágrimas da menina que se escondia no Castelo de Gelo. Eu era Ama, eu era escrava, eu era amante, e isso era tudo a mesma coisa para mim e para ela. Houve muitas juras em silêncio que ainda fazem presença todas as vezes que nossos olhares se encontram e elas se apresentam tão fortes que nem parecem que faz tanto tempo.
Aquela dor, que parecia minha, me fez atirar o pente no espelho para mudar o curso do Sol.
Mas, pior para mim, porque agora cada caco refletia aqueles olhos; eram centenas de olhos, eram centenas de princípios de lágrimas. Uma vez você ainda vai me perguntar se tem coisa pior do que vê-la chorar. E eu vou te responder: é berinjela.
Eis o veredito:
- Você é metade certa e metade errada. Gosto da sua petulância em atingir o alvo, mas gosto ainda mais da sua insistência insana em errar para proteger o que é nosso.
É claro que isso poderia estar ambientalizado em um cenário completamente medieval, com velas e muitos vestidos bufantes, com beberrões trôpegos querendo o pescoço da jovem pecadora. Eu até posso sentir o cheiro que vinha dos porões onde talvez ela ficaria por alguns anos, quem sabe a vida toda. Todavia, o sentimento do momento, o pulsar dos batimentos e as mãos trêmulas deram conta de tudo isso.
Eu já tinha avisado que seria assim, mas ela não acreditou e ficou se achando pequena. “Eu nunca mais vou me incomodar”, sonhou. Prefeiriu sorrir a se incomodar. A sorrir pra nunca mais.
Era óbvio que seria assim. Porque eu sonhei que fosse. “... E eu não te disse?”
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“Then the words don´t fit you,” said the King looking round the court with a smile. There was a dead silence.
“It´s a pun!”the King added in an angry tone, and everybody laughed. “Let the jury consider their verdict,” tha King said, for about twentieth time the day.
“No, no!” said the Queen. “Sentence first – verdict afterwards”.
“Stuff and nonsense!” said Alice loudly. “The idea of having the sentence first!”.
