26 Janeiro 2009



[Segunda parte. Aquela em que Alice se surpreendeu e sorriu.]










Se o sonho é bom, é porque é besteira, é porque é só um sonho, vai dormir que amanhã é dia de acordar cedo, menina, e vê se apaga essa luz. Se o sonho é ruim é mal agouro, é pressentimento, é tentação, é melhor tomar jeito e fazer sinal da cruz antes de dormir...

Odeio sonhos.

Quando se pensa em algo ruim, é porque certamente já está comsumado. É a lei das senhoras sensíveis e era a única lei que eu conhecia. A única. Você pode duvidar mil vezes de uma palavra, mil vezes de um presente, mil vezes de um gesto desengonçado – cada um esconde sobre si mil faces ocultas, como alguém já o disse, sob a face visível. Mas o pressentimento e os sonhos não são assim: uma afetação maquinada para arrumar as malas e prumar pro mar. Do instinto primitivo e do gênio intempestivo não posso me livrar e eu acho muito pouco provável que isso aconteça um dia, Ama.

-

Não se precipite: o óbvio sempre acontece, aconselhei.
E porque era Alice, não se precipitou. Manteve-se atenta às palavras dele, esperando em cada pausa de respiração o momento em que a dor seria mais forte. Não era um julgamento, mas acataria a decisão dele, fosse ela qual fosse. E, sendo ela qual é, já tinha preparado uma roupa para ambos os casos, para ambas respostas, sem pensar que todas as respostas do mundo requerem mais do que um “sim” ou do que um “não”- não por precaução, mas assim poderia ocupar a cabeça com coisas menos etéreis.

Ela mudaria de casa se fosse preciso. E mudaria o cabelo, e as tranças, e o jeito de falar, e o nome, ela pagaria com outra identidade para ouvir. Eu sinto em dizer que as malas estavam prontas e uma despedida digna levemente arquitetada.
Era interessante tentar recompor os feitos que fizeram com que as coisas chegassem a esse ponto. Ela mesma ultimamente fazia isso com frequência, porque tinha medo de esquecê-los e ficar sem saber o motivo de tanta afetação.
Desde o momento da grande revelação, quando, no ato final (mas muito antes de as cortinas se fecharem), a atriz da companhia amarela se revelou sem talento e a improvisação não agradou a ninguém da platéia. Aquele sorriso embasbacado diante do teatro lotado, os uivos e o seu vestido em farrapos foi um deleite para Alice. Era um tipo de prazer que ela nunca tinha experimentado: “nem para uma gueixa ela serviu”, pensou. Teve pena de si por pensar assim, mas teve mais pena ainda dela, por se atrever com um tipo de gênero cênico que não dominava.

Lágrimas combinam.

Aquele dois olhos grandes prontos para chorar era demais para mim; raros os amantes que conseguem suportar firme lágrimas da menina que se escondia no Castelo de Gelo. Eu era Ama, eu era escrava, eu era amante, e isso era tudo a mesma coisa para mim e para ela. Houve muitas juras em silêncio que ainda fazem presença todas as vezes que nossos olhares se encontram e elas se apresentam tão fortes que nem parecem que faz tanto tempo.
Aquela dor, que parecia minha, me fez atirar o pente no espelho para mudar o curso do Sol.

Mas, pior para mim, porque agora cada caco refletia aqueles olhos; eram centenas de olhos, eram centenas de princípios de lágrimas. Uma vez você ainda vai me perguntar se tem coisa pior do que vê-la chorar. E eu vou te responder: é berinjela.

Eis o veredito:

- Você é metade certa e metade errada. Gosto da sua petulância em atingir o alvo, mas gosto ainda mais da sua insistência insana em errar para proteger o que é nosso.

É claro que isso poderia estar ambientalizado em um cenário completamente medieval, com velas e muitos vestidos bufantes, com beberrões trôpegos querendo o pescoço da jovem pecadora. Eu até posso sentir o cheiro que vinha dos porões onde talvez ela ficaria por alguns anos, quem sabe a vida toda. Todavia, o sentimento do momento, o pulsar dos batimentos e as mãos trêmulas deram conta de tudo isso.

Eu já tinha avisado que seria assim, mas ela não acreditou e ficou se achando pequena. “Eu nunca mais vou me incomodar”, sonhou. Prefeiriu sorrir a se incomodar. A sorrir pra nunca mais.

Era óbvio que seria assim. Porque eu sonhei que fosse. “... E eu não te disse?”




---
“Then the words don´t fit you,” said the King looking round the court with a smile. There was a dead silence.
“It´s a pun!”the King added in an angry tone, and everybody laughed. “Let the jury consider their verdict,” tha King said, for about twentieth time the day.
“No, no!” said the Queen. “Sentence first – verdict afterwards”.
“Stuff and nonsense!” said Alice loudly. “The idea of having the sentence first!”.

21 Janeiro 2009












“Viu só...?”

Era um tipo de irritação comedida. Como quando um carro derrama umas gotinhas da poça de chuva bem em cima do seu all star. Ou quando você chega em casa pensando que ainda tinha um pouco da sobremesa de domingo. É ruim, mas não é caso de sair gritando.

Muito embora fosse uma situação que aborrece, essa de verificar por ∫n que você estava errada, e a outra pessoa certinha, e ainda com aquele sorriso finito no canto da boca, de satisfação em acertar o erro de alguém. Não era por mal, óbvio. E o que aconteceu era óbvio pelos olhos dos outros, há uma auto desconfiança genuína nas meninas de meias até os joelhos; não por causa das meias, mas justamente por causa delas.

Alice. Teve que mudar de nome. Porque ficara mais formal, mais conveniente (mais conivente?), mais metida com negócios e tímida, também. Falava sempre firme e serena, sem a dignidade feriada de outrora, que lhe inflamava a garganta – sem berros dessa vez, Alice. Dependendo de quem, até poderia quebrar o silêncio com alguma observação fora de hora, mas quase nunca fazia isso; era calada no que mais lhe permitiam. E aprendeu a recusar algumas noites de orgia desconhecida por um tipo de rotina que se repetia e que nunca era igual. Não tinha nada a ver com rotina, então, pensou, era um compromisso. E, ao invés de crer no óbvio, preferiu acreditar na morte – quase como uma defesa.

A carta de Natal não foi escrita. Certamente não era para o Velho Noel, mas ela pensava que era, porque fazia pedidos e promessas. Todos baseados no seu latino comportamento; não dá para escapar muito disso com um sobrenome como o dela. Era uma carta de agradecimento, também, e mais que isso, era carinho,era design, era criatividade, era cheirinho de baunilha, mas sem beijos. Coisa mais nojenta que marca de batom? Não houve carta. Tinha medo de ser lida -

Escrever é matéria pesada. Cada palavra tem o valor vazio de cada palavra. Aos poucos você vai aprender o valor das palavras vazias, mas isso é com o tempo. Não dá para acreditar naquilo que você vê, que você lê: quem é que vai decidir sobre o significado final e colocar a música como pano de fundo das horas que não passam? Ou se passam, voltam; passam ao reverso. As palavras incriminam. Às vezes, ela pensava, que o ato de escrever é a única maneira de transformar o óbvio.

A nudez, as máscaras no chão, os cabeças sem rostos, desfiguradas, andando a ermo em meio ao que não se podia ver. Os olhos tinham ficado nas máscaras caídas no palco. Dava uma certa tensão, sem poder olhar a reação da platéia, esperar por palmas ou vaias. de uma forma ou de outra, todos os atores dariam as mãos no final e fariam um gesto de reverência. É... pensando bem, a reação da platéia não importa tanto assim. –

Era suficiente que uma pessoa habituada a reconhecer máscaras caídas, ou faces desfiguradas, para que Alice ficasse com medo. Das palavras. Nunca se sabe se uma palavras está indo ou vindo, era mais dificil lidar com elas do que com os rostos sem faces. Havia um bom candidato, aquele que era curiosamente diferente, porque enquanto buscava por pistas, arqueava a sobrancelha sem perceber. Era dificil ouvir qualquer explicação sobre como ele tinha chegado a um significado que parecesse bom, porque depois da primeira vez que a sobrancelha se erguia, era difícil tirar os olhos delas.

De frente para a penteadeira, enquanto eu mesma enrolava as mechas do seu cabelo, um cheiro de canela veio ao ar. Um cheiro de gueixa, de mercado de peixe, de perfume de morango, e todas essas coisas irritantes. Ela não falou nada, mas naquele momento o Tempo passou mais devagar – ela pensou que eu não vi, mas ficou um bocado de tempo observando o filme que passava dentro dos seus olhos pretos. Sutilmente, porque agora era moça comedida, como eu disse, uma lágrima se formou. Eu também sabia, mas havia outra pessoa.

Nunca se está completamente curado de nada. As cicatrizes, as manias, as formas de resolução, são sempre marcas de que alguma coisa se passou. Uma ferida de espadas pode doer depois de anos, sempre que um pensamento referente a isso ocorra. De fato,ninguém sai ileso de nenhum tipo de perturbação desse mundo; e todos estamos sujeitos a isso. Ela pensou que estivesse curada e que o retorno à decomposição das cores seria sublime, mas ela sempre se esquece de que a maioria das coisas mágicas trazem uma forma de solidão. Veja bem, você está diante das mais belas obras de arte, dentro do castelo do Rei dos Contos de Fada, dia de festa da corte, mas aos poucos, conforme passa pelos corredores infinitos, vai percebendo o quanto de solidão tem tudo o que toca você – e tudo o que você pode tocar. Contrariado, você entra em um quarto em que a luz tinge de azul a sua roupa de gala. Qual era mesmo a cor original? Os botões que pregavam os quadros na parede também tinham sido esquecidos.

Bem que podia ser um sonho, pensou, porque ela já tinha sonhado isso várias vezes antes, mas dessa vez não era era real e o dormitório inteiro derretia exceto a cadeira e o metro quadrado em volta dela. E qual o sentido de tudo isso?, pensou. Eu digo, eu digo: você se dedica, se apresenta, se torna realmente parte de tudo o que antes era parte dele... para aos poucos, acontecer de derreter.

Enquanto escrevia a carta de Natal, o tempo congelado derretia. Você já recebeu um presente de Natal sem carta? Não, não de Alice. E ela rasgou a carta em pedaços que poderiam atravessar o buraco de uma fechadura.


[fim da primeira parte. Aquela em que Alice não cria.]