
A última vez que eu tranquei a porta do quarto eu guardei a chave dentro da primeira gaveta do criado-mudo. O tipo de chave que abre a porta do meu quarto é do modelo antigo estilizado, assim como todas as chaves são representadas nos desenhos infantis: comprida, com o pegador de borboleta e a combinação divida em duas partes, um segmento maior e outro menor. É simples imaginar algumas ferramentas a partir do protótipo primário que temos, adquiridos das histórias de quadrinhos ou, como eu disse, dos desenhos animados, dos vídeo-games, das tarefas de educação artística na sexta série. Por exemplo, aquelas nuvenzinhas... cada uma formada por semicírculos bem definidos, bem redondinhos, e vazadas no meio, sem matéria por dentro, completamente ocas. Se as crianças fossem realmente inteligentes, elas saberiam que ali, naquele vazio, não caberia nenhuma chuva.
Talvez não. Há ainda uma hipótese de as nuvens serem como as palavras e às vezes aparecerem invertidas, com o lado de dentro pra fora. E daí, para um desavisado que atravessasse a rua correndo tentando não ser notado por esses palhaços que gostam de mexer com as pessoas na rua, a nuvem seria exatamente como nos desenhos infantis e ele poderia se sentir num mundo onírico, com nuvens vazadas e palhaços perseguidores. Não, não. As crianças são muito inteligentes. Elas conseguem se lembrar ainda que por pouco tempo do lado escondido das coisas. E a minha chave também.
Bom, se pelo menos eu tivesse um pirralhinho, eu poderia persuadi-lo a tentar me ajudar a encontrar a chave, neste ou no outro lado. Tenho certeza de que algum desse tipo ia conseguir isso pra mim de pronto. Mas não há mais ninguém aqui no quarto além de mim e de um retrato na parede da formatura para primeira série. Eu não sei se isso se chama formatura de verdade, mas eu tinha sete anos de idade, com franja e olhos enormes, e não queria sorrir pra foto. Eu nem queria tirar a foto, mas eu gostei do fundo que eles prepararam, de araras coloridas, com bicos enormes, cada uma se inclinando para a outra, como se fossem perfurar-se as costas. É claro que eu não tive essa impressão naquela época, mas aqui, trancada há algumas horas e olhando para essa fotografia, as araras mórbidas se sobressaem mais que meus olhos de jabuticaba e o sorriso contrariado de canto de boca. “Isso, boa menina”.
A minha mãe não estava no dia da foto, mas se ela tivesse, ela teria me mandado sorrir. Na verdade, se não fosse por um gênio muito próprio, ela ia querer me passar batom vermelho ou pintar as minhas unhas. Todas as vezes que eu penso em batom, me embrulha o estômago porque logo me vêm à mente aqueles copos nas festas em casa, com marcas de batom nas bordas. Eu jamais beberia coisa alguma em um lugar daqueles. Pelo menos, daqui a pouco ela ia chegar em casa e poderia me ajudar a encontrar a chave, ou talvez ela mesma possuísse uma cópia, e então ela iria me tirar daquele tédio. Só que ela não chegou nunca.
O quarto é uma suíte. E tinha janela. Mas não era o caso de pedir ajuda ou sair pela janela. O quarto fica no sétimo andar, sem varanda. Eu esperei até dar nove horas da noite; a essa hora ela já deveria estar em casa, mas eu não ouvia nada. Eu penso que nove horas da noite é o limite máximo para uma mãe preparar o jantar da sua filha. Bom, pelo menos se minha irmã estivesse lá, isto seria da forma como estou falando. Porque eu bem me lembro, e como vou esquecer?, das comidas gostosas que tinham na janta. Ela sentava-se com a minha irmã mais nova na mesinha de plástico das filhinhas, e eu me sentava à mesa de madeira com meu pai. E, quando ela se referia a ele, ela sempre falava “vocês” ao invés de referir-se a “ele”, no singular. Era uma forma de punição porque eu era a filha mais inteligente e bonita. Só que meu pai, vendo que se instaurava uma dicotomia familiar, começava a tratar minha irmã de forma muito mais querida, para quebrar a imagem que minha mãe tinha sobre ele. O resultado é que eu sempre ia embora pro meu quarto e ficava trancada lá por muitas horas, até alguém perceber minha falta de presença. Você sabe, as mães são os verdadeiros monstros da infância.
Eu tentei dormir. Só que as regras do sono só funcionam quando fazemos alguma coisa com o corpo, é preciso cansaço, exposição, banho. E, certamente, ficar horas deitada na cama olhando uma foto antiga não se encaixa em nenhuma das três anteriores. Isso sem falar na vizinha do andar de cima.
Todas as possibilidades estão contidas na finitude de uma história. E a vizinha do andar de cima não dormia de noite. Andava de um lado pro outro, com seus passos pesados, deveria ser gorda e não tirar nunca sua camisola branca com um furo no umbigo. Quando ela se deitava, eu ouvia direitinho sua cama pular, duas ou três vezes, até ela encontrar uma posição que lhe confortasse durante dez minutos.
Tomando como regra de que todos os apartamentos são iguais, o quarto dela deveria ser também uma suíte. Dez minutos era o máximo que ela conseguia ficar parada. Logo ela levantava, eu podia acompanhar seus passos, e ia até o banheiro. Dava para ouvir tudo o que ela fazia lá dentro, como se ela estivesse usando o meu próprio banheiro. E voltava, depois de uma descarga espalhafatosa, cujo barulho ainda ecoava por um tempo. E a cama tremia.
Eu precisava me lembrar onde tinha guardado a chave. Mas o que conseguia me lembrar não extrapolava uma voz fria, que emerge dos cantos mais profundos da mente quando se deseja tomar à força uma memória que estava esquecida. “Eu me lembro de muita coisa da infância, mas não consigo guardar o lugar onde coloquei uma simples chave”, disse a menina da fotografia. É porque era uma memória boa, dos tempos de criança, quando os planos eram feitos e construídos e terminados no mesmo dia, na mesma tarde, no parquinho. Não era mais assim.
Muito tempo depois, ou dias, eu comecei a sentir um cheiro insuportável no ar. Inconfundível cheiro de cigarro. A janela do banheiro dava para a cozinha. Provavelmente ela estava lá, fumando, como ela sabia que eu sempre detestava. Ela sabia também que, quando acendesse um cigarro, conseguiria se ver livre de mim pelo tempo que durasse a última tragada. Então, nos dias de visita, quando algum parente vinha conversar comigo, ela acendia um cigarro, e eu ia embora, deixando o padrinho, os tios e o pai, claro, pensando que eu era uma “cabritinha envergonhada”. Eu podia ver nos olhos dela a delícia em raspar o fósforo e dar a primeira tragada naquela boca preta, me vendo ir embora contrariada e em silêncio. O fato é que eu sabia mais dela do que ela de mim. E isso me tornaria superior em casos de guerra. Além disso, poderia reconhecer esse cheiro a muitos lugares de distância.
As noites se seguiam quase em plena comunicação com a vizinha de cima, que já se tornara mais um ser detestável. Todas as vezes que eu ia ao banheiro, durante a noite, ela se levantava também e as descargas eram acionadas ao mesmo tempo. Não importa a que horas isso acontecia, até porque para mim tão pouco valia saber as horas. Somado a isso, o fato de que a luz do banheiro falhava quando ela pisava o chão do banheiro de cima. Aos poucos, eu fui percebendo que ela também tinha notado a minha presença e que ficava a noite na espreita de eu me levantar para que eu notasse que a minha presença também a incomodava. Não vou dizer que faço o tipo de boa vizinha, dessas dos gibis que levam bolo de amora quando você recém se muda, mas nunca me reclamaram, todavia. Dessa vez eu não me importava. Uma hora ou outra ela ia notar a minha presença exclusiva no quarto, dar-se conta do fato da minha prisão, e poderia me ajudar a encontrar a chave – ou uma saída qualquer.
O fato é que então eu percebi uma coisa que me tinha passado despercebido por completo. Nas minhas idas ao banheiro, tão inclinada a seguir e ser seguida pela vizinha, muitas coisas no quarto se transformavam. A garrafa de água e o lugar do travesseiro, não importa onde eu os deixasse, quando voltava, com aos mãos cheirando ao sabonete de morango, voltavam aos seus lugares originais – originais, digo, como a minha mãe gostava que ficassem. Era como se com tudo o que eu tocasse não houvesse interação, era como se eu tivesse sido engolida sozinha pelo lado de dentro.
Isso quer dizer que a minha mãe tem a chave e espera que eu vá ao banheiro para satisfazer seus impulsos higiênicos domésticos. A primeira vez que tentei me matar foi um dia de muito trabalho. Ela me mandou tirar pó de todos os móveis da sala, porque a parede era de tijolo à vista, e então juntava muito pó, conforme os tijolos iam se quebrando sozinhos. De modo que eu nunca terminava bem o trabalho, já que era um espanar de pirâmides no deserto. E ela me deu uma surra, me falou mal, de vários nomes horríveis, eu não lembro muito bem. O que eu me lembro é de um vidro vazio de remédio para dor de garganta. Mas não aconteceu nada, além de ter cortado minhas crises de amígdala por um bom tempo.
Eu poderia vender a alma ao diabo para sair dali de dentro, eu chamava pelos vizinhos, chamava por ela inúmeras vezes, muito mais quando sentia sua fumaça no banheiro, mas de nada adiantava minha súplicas, nem aos céus e nem aos infernos. Estava do lado de dentro, e nada poderia me ouvir. Se ela tivesse mesmo uma chave, é bem capaz de ela mesma ter me trancado lá.
Uma vez eu consegui sair por baixo da porta e fui até a cozinha. Estava ela conversando com uma senhora gorda de sobrancelhas muito grossas e negras. Elas riam enquanto fumavam um cigarro e montavam uma espécie de altar, com incensos e muita fumaça. Nesse momento, eu percebi que, mesmo que eu voltasse e fosse ao banheiro, a vizinha não estaria mais me seguindo. Isso era tudo muito óbvio, afinal ela estava na cozinha com a minha mãe, mas como foi que ela conseguiu atravessar os andares de camisola?
Acho melhor chamar alguém pela janela, abri-la, ver um pouco de luz. Claro, por que eu não fiz isso antes? Alguém poderia me ouvir, o sétimo andar não fica tão longe assim do chão.
A janela era um tipo de persiana horizontal, mas não exatamente isso. Sempre emperrava, mas eu já tinha prática. Muitos barulhos se misturavam com os passos intermitentes da vizinha, agora tudo outra vez. Havia muitas coisas acontecendo lá fora, havia muita gente reunida, bem embaixo do prédio: um carro de polícia ou de ambulância, algumas pessoas em volta de uma menina bem pequenininha segurando alguma coisa grande e maciça, muito maior que ela e mais pesada do que eu suporia que uma criança conseguisse carregar. Pensando bem, não havia expressão no rosto da criança, não dava para saber se era menino ou menina; na realidade ela não tinha rosto algum, estava agarrada de tal maneira ao objeto, deitada imóvel sobre uma poça de sangue. As sirenes estavam a pino, e não havia quem pudesse me ouvir, todos tão entretidos com o acontecimento perto do meio-fio. Mais uma ambulância...
As luzes agora estavam dignas de um grande espetáculo, tocando a criancinha com a cor vermelha típica dos alarmes de emergência, iluminava a criança sem rosto de vermelho, refletia toda a poça de sangue... e iluminava também o objeto, que aos poucos, foi se transformando aos meus olhos em uma enorme chave dourada.
Nesse momento de susto, um leve som de destravamento na porta do meu quarto foi ouvido. Alguém, finalmente, tinha me descoberto lá, encontrado a cópia! Saí correndo, caindo direto no corredor do apartamento. Não havia ninguém, e não havia sinal de que alguém pudesse ter estado lá nos últimos dias. O chão era cheio de filetes de papel de parede rasgados que ocupavam boa parte do piso e havia araras pintadas de sangue por toda parte. Não havia mais portas.
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“Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,”
(A. Campos, "Tabacaria")
5 comentários:
Fantástico
valeu a espera de 3 meses...
Fantástico! de verdade!
Td bem com vc nesse ano que comelou?
Abraços diretamente do meu Cotidiano.
Que vontade deu de quebrar as paredes e ressucitar a menina.
Queria poder ressucitar pessoas, sinto falta de uma porção delas.
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