17 Novembro 2008




Você sabe como Anita ficava bem com aquele vestido. Aos seus pés, descia os olhos de todos os rapazes do lugar, dos rapazes que eram bons para casar – e devo dizer, das raparigas sem vestido. O ritmo do nada embalava todos os ritmos-por-dentro daquela caixa fechada, ambiente abafado, com música parada, às vezes muita luz, às vezes pouca luz. Você sabe como Anita ficava bem de carmim. Em todo caso, ela também sabia.

Não queria casar. Pensava a todo o momento em como era trancar a porta do banheiro para que a sua mãe não a visse recortando as fotos da revista. Sentava de costas para a porta, e ficava a tarde inteira recortando fotos, palavras, cores. Deve acontecer com todo mundo, isso de ter que esconder alguma pulsação atravessada dos olhos de todos – se ela fosse a única a olhar o que de fato acontecia na parte de dentro do banheiro, ela e talvez mais outro par de olhos, o fato do segredo, não escaparia para além dos quatro olhos e das quatro paredes. Em todo caso, ela teria que se trancar no banheiro algumas vezes para olhar as fotos que não saem nas revistas. Era uma pergunta recorrente, se os olhos que ela olhava também olhavam pra ela ou se eram apenas fragmentos de carta, mentiras, poemas, ecos de antigas palavras.


Futuros amantes poderão se amar /
se pra eles eu as deixar,/
essas palavras, ai, essas palavras/
quanto tempo dura/
essas palavras, ai, essas palavras/
que ninguém cuida?


Aos poucos aprendi a desconfiar do seu silêncio e a desconfiar de todas as suas manias em exposição – com disposição – eu me deitava ao seu lado, sua sombra em cada canto. Ela pedia uma cerveja e ficava no canto. Não era por causa do carmim, era uma preocupação estética, Anita, ali, no canto. Eu a chamava para o centro da caixa, para o centro das moças maravilhosas (cada qual desbancando outra), mas ela mal me olhava.

No meio de um gole e outro de cerveja, um bilhete escrito com batom carmim:

“Você não precisa dançar no meio,
não é isso que me excita.
Vem cá, Anita, bonita.”

Ela foi.

06 Novembro 2008

da série: "fotografia não-autorizada".

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- Mãe, o que é Amor?
- Amor é assim: a, eme, ó, erre.
- Não, mãe... não é isso. O que é que quer dizer?




[silêncio]




- Tá, mãe. Agora uma mais fácil: como é eletricidade em inglês?