16 Outubro 2008

contagem regressiva.





a gente podia fazer tudo de novo. (era o que ela queria).
parece que não vende mais dessas coisas.
mas vamos mesmo assim?
a gente pode fingir que vai acabar logo.
a gente pode rasgar o mapa que volta pra casa.
eu acho muito boa a sua idéia. até porque você já aprendeu a fazer o café.
isso significa que eu sou grande?
isso significa que eu estou te ensinando coisas demais.
tipo uma mãe. igual a uma mãe. (silêncio inefável - como dizer?).
posso voltar a ser a sua e só?


por que é que ele tinha que ir embora se uma hora ele vai voltar?
nesse caso, o ir e o voltar não seriam eles a mesma coisa?
era um sentimento estranho, a sensação de incompletude
mesmo que saísse só para escovar os dentes.
pasta de dente na minha saliva.


ela dizia: "você não pode ficar?".
e ele, já no elevador com um sorriso de saudade:
"amanhã eu volto".


lichia podia dar o ano inteiro.
podia.
em um ano você acha que esquece de mim?
acho que não é tão depressa assim.


você devia responder as minhas cartas.
não sei o que responder.
eu pensei que era culpa do inverno. eu sempre penso tanta coisa...
você não precisa quebrar as coisas para tentar entendê-las.
“é um amor que um dia eu deixei pra você”


uma coisa nova me ocorreu.
era ele assobiando alguma música que eu não sei qual é,
e cantando as partes bonitas em voz alta.
eu fiquei bem quietinha, eu sempre faço isso.
no fundo, eu acho que o silêncio é o oposto das costas.

05 Outubro 2008

A data certa é importante.

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Sobre tudo o que aconteceu no mês passado:
Embaçado, janela embaçada. Foi pretensioso eu achar que vinha dos meus olhos, era só chuva.
Engraçado.
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“Quanto mais te aproximas de matéria autêntica, da pedra, do fogo e da matéria, mais o mundo resulta espiritual. Toda essa gente que se considera materialista seguramente não sabe nada disso”
-------------------------------------------------- Jacques Kerouac





Era uma época em que todas as coisas eram permitidas. E digo que eram permitidos alguns resmungos matinais, alguns olhares de reprovação e uma ou outra negligência – uma ou outra, e não duas. Não era sempre e muito menos pra machucar. Mas não se pode fantasiar o real durante todo o dia, principalmente quando o que é verdadeiro, no sentido ‘sem base no rosto’, é, ainda assim, encantador.
Eu saberia dizer todos os momentos de tédio e paixão, e saberia explicar com um brilho nos olhos como o arroz com feijão é prato principal.

Um minuto é um minuto, eu não vou discutir com as incoerências matemáticas. Mas um minuto pode ser muito mais intenso... ou não. Na sociedade contemporânea, por exemplo, isso é muito importante. Nossos relógios fazem questão de marcar as diferenças de segundos, e elas valem bastante. Eu não sei se é porque eu gosto de ficar em silêncio, mas tem milhares segundos que valem exatamente o que eles são: segundos. Do tipo, colocar um relógio que só marque o tempo em dias. Em meses.
Sério. Faz alguns meses que eu desejo um relógio com marca de anos. Principalmente se só tiver uma marcação.

Mesmo que pareça mais rápido ou devagar – um minuto – um minuto é sempre um minuto a menos, um minuto a mais de morte. Eu não estou julgando esteticamente, mas essa é a grande diferença entre os grafites do ponto de ônibus e as pinturas da Capela Sistina: você sabe, o afresco dos muros não vai durar. [Os meus segundos em suspensão datam de 1508.]

Dentro do quarto é física. Não conseguindo transpor o espaço, o tempo não passa. (Mas ele passa, de uma forma bem pesada). É metafísica.

Quando se colocam duas pessoas no mesmo espaço, o que sobra ao final das horas pesadas? A essência. As máscaras caem. *Mas isso é muito incisivo!* Eu sei. Ué, mas o mundo é assim: ( ).

Quanto tempo dura uma rosa no vaso? É preciso questionar algumas coisas. A rosa que murcha no vaso, que apodrece, que caminha para o seu tempo ilimitado. A mesma rosa que pára o tempo, que perfuma o espaço e desloca os sujeitos. São máscaras, são valores. E daí, pra que essa retórica toda? – alguém pode pensar assim.

Hoje eu descobri. A essência e a fantasia é tudo uma coisa só. E eu sou apaixonada por ela e pelas duas. Se fosse pra escolher uma resposta, eu escolheria: ‘todas as anteriores’. Percebe que tudo isso é melifluamente complicado?

O simples às vezes é muito interessante porque ele pode ser muito produtivo. Precisamos enriquecer nossa capacidade de inventar as coisas.