24 Julho 2008

Banshee




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Há outras coisas fora do lugar, mas eu queria mesmo é falar sobre o vestido.
H. era do tipo que se achava o ser mais importante do universo. Sua grande habilidade com a narração servia para fazer com que não poucas pessoas também se convencessem da sua grandeza: uma tarde sem graça num bar comum poderia se tornar um grande acontecimento na boca dela.
Não é comum que uma grande e distorcida narrativa consiga convencer pessoas - isso é dado do gênero da retórica -, mas a vida nada notável das pessoas se tornavam grandes feitos na boca dela, por causa do modo como ela falava, ou sorria e continuava a falar. Bem, eu diria que não há magia mais graciosa do que transformar a vida das pessoas em grandes histórias; a coisa bela está na cabeça das pessoas, o viver e o desviver e o viver bonito é tudo uma coisa só, é tudo uma invenção derretida. Se você pudesse ser o assunto principal de qualquer uma de suas narrativas, como eu já fui, iria se sentir tão orgulhoso de si que passaria a acreditar e concordar cegamente que H era o ser mais importante do universo. Ora, tomando consciência disso, H ficaria satisfeita e o colocaria mais vezes como tópico narrativo, para regojizo próprio, criando esse vício que gravita em torno do ego.

O problema foi que eu não me deixei levar. Aos poucos eu fui percebendo, e eu digo, bem aos poucos, o abismo que existia entre como ela contava e como ela de fato vivia. Não que a mentira tomasse conta; o poder de sua fé nas mentiras que ela inventava era tamanha que ela se convencia e convencia algumas pessoas em sua órbita. Acho que ela tinha parte com Deus, vai saber. Eu não enchia a mão, mas "algumas pessoas" na boca dela enchiam um teatro inteiro. A fé que ela tinha nas coisas que não existem me assustava. Um dia, fizemos um pedido juntas e acreditamos juntas na sua concretização. Não demorou mais que alguns meses, bem poucos, para que tudo se tornasse verdade. E eu digo que desde as mais tênues nuances do pedido foram concretizadas, como se o real fosse inventado a partir do que pedimos. Bem, talvez o fato de muitas pessoas acreditarem em anjos tenha feito com que eles se concretizassem; foi mais ou menos assim com a gente. E não o contrário.

Como eu estava falando, eu não me deixei levar. Aquelas fantasias eram uma chateação para quem sabia enxergar sem purpurina, eu não conseguia disfarçar, só balançava a cabeça em sinal de aprovação. Contrariada, ela fazia um escarcéu, ela acabava com uma semana inteira da sua vida quando contrariada. Em sinal de aprovação em como o namorado dela era perfeito ou sobre quanto também perfeitos o eram seu trabalho, suas notas, suas amigas. Veja, não é uma questão de medo; eu só não queria ficar criando caso. Suas viagens, seus finais de semana, seu bom gosto para roupas, perfumes, maquiagem. Na verdade isso nunca me incomodou, eu até me interessava pelo assunto, como um psicanalista que tenta entender algumas bizarrices do paciente. Concordar é abrir uma passagem para a fala do outro, é abrir o fluxo do inconsciente. E eu concordava com a cabeça. Mas houve um dia, eu não me lembro de qual dia, mas eu me lembro da conversa.


- Eu não sei se gosto de avelã. É um sabor meio engraçado. Toda vez que como avelã me dá dor de barriga.
- Ixi, que coisa H.
- Daqui para frente, vou chamar avelã de piriri, porque é o que acontece quando eu como.
- Hahaha. Certo.


Havia muito entre ela e mim. Em pouco tempo, criamos um laço forte de amizade mesmo e outras coisas a mais, muitas outras coisas, e no tempo em que ficamos com o coração vazio, tínhamos cada qual o conhecimento exato do recheio que poderia trazer sorriso. Era a fórmula. E ela costumava chamar de coisas compartilhadas. Hoje em dia, que eu sei, ela usa essa palavra em vão, mas para mim as coisas compartilhadas entraram bem pra dentro.


- H! E como vai o piriri? Melhorou? - Eu pensava que poderia me apossar do apelido.
- Ixi, não. Piriri me persegue. Nem sei o que fazer. Acho que vou trocar de comida.
- Hahaha. Certo.


Um dia foram injustos com H na minha frente. Não foram, foi. Porque era uma só. Era uma grande amiga minha. A injusta tinha motivos que eu desconheço para ser injusta com H, mas eu nem quis saber. Todas aquelas injustiças sendo ditas na-mi-nha-fren-te me cegaram de raiva e eu nunca mais tive o mesmo amor pela injusta, ainda que ela não estivesse falando por mal (a mim).


- Comi piriri hoje e lembrei de você, H.
- Menina, pára de falar piriri porque alguém pode ouvir.
- Mas estamos entre nós.
- Ai, tudo bem. Até porque o piriri...


Aos poucos eu fui mostrando pra ela, eu tentei fazer isso, não sei se deu certo, que eu não era personagem das histórias dela, que eu não vivia no fabuloso mundo de H, que muitos dos meus desejos iam de encontro com os dela e que mesmo assim eu sorria bem forte. É um costume meu sorrir mesmo diante de algumas adversidades. Eu aprendi cedo a construir tudo de novo com sorriso no rosto. Sorriso de loucura. O que? Todos os sorrisos têm um toque de insanidade, o meu não seria pior por causa disso.


- Agora eu entendi tudo. - Ela falava com um tom de ódio. - Essas brincadeirinhas com piriri eram só para me irritar. Fazia de propósito.
- Mas H, o apelido foi VOCÊ mesma que inventou e as primeiras piadas foi VOCÊ quem fez! Por que não avisou logo que a incomodava?
- Na verdade não me incomodava. Mas agora eu sei que foi tudo de propósito.
- Hahaha. Certo. - Era uma risada irônica e louca dessa vez.


Foi exatamente no dia em que ela foi injusta. Assim como tinha acontecido antes, mas agora era tomava o lugar de injusta [eu tinha que fazer o meu de justiceira] e injustiçava com ódio alguém sem malícia. De grande piada, o objeto dela tornou-se grande amor e, aos que não acompanharam a rápida jornada, foram injustiçados. De alguma forma eu fazia parte de tudo aquilo o que ela dizia, de todas as palavras fortes que ecoam (não as palavras, mas a maldade delas). Nesse dia com as mãos lambuzadas de croissant, alguma coisa lá dentro de quebrou.


E H. vai dizer:
- Foda-se.
E eu vou dizer:
- Hahaha. Certo.


Ela achava bonito ser mimada. Digno de uma princesa. Pois eu digo que não, e que por causa disso, minha vontade de contrariá-la aumentava mais ainda.
Mas eu queria falar dos vestidos que estão fora do lugar. Eu não sei se vai sobrar muitas coisa nela de mim e dela em mim depois da troca.
Ao contrário do que acontece na poesia, o vestido não estava pregado na parede. Algumas coisas pareciam derreter e escorriam para um lugar escuro, parecia um abismo, mas eu não quis olhar. Eu juro que procurei por pregos e um martelo, mas algumas coisas são frágeis demais. Não tenho certeza de que saberia o que dizer se a encontrasse agora.

18 Julho 2008

Carta

Cliquem. Vale a pena.
Eu andei pensando em coisas desse tipo essa semana. Acho que vale um post.

Carta a um Jovem Cientista. Recomendado hoje por um Prof. Titular do dep. de cosmologia da USP.




07 Julho 2008

Quadrilha





A menina do sétimo andar não tinha mania de olhar embaixo das coisas. De alguma forma, ela sabia que o que tivesse de acontecer aconteceria, independente da sua vontade. Porque a grande enganação é achar que se tem controle sobre alguma coisa; nem adianta perder o calor, nem desatinar por causa de nada, ninguém sabe o rumo que irá tomar. Mas tinha muita coisa embaixo das coisas. E quando ela notou, estava, ela própria, sobre um monte de coisas de que sequer sabia a procedência.
Só havia duas chaves. A dela e a dele. Se não fora ela que tinha trazido essas coisas pra lá, certamente fora ele. E, por conta de uma confiança genuína, não havia motivo para querer saber o que era tudo, o que eram os telefonemas, o que eram as mensagens, o que eram as cartas, o que eram as fotos, o que eram os presentes, o que tinha dentro dos embrulhos, o que significava aquela língua que pra ela parecia não fazer sentido. Eu posso dizer que era uma confiança genuína aliada a um certo brio que não deixava ela sujar as mãos com coisa alheia. Estava tudo certo até o dia em que ela, quando precisou sair de casa, foi procurar um camafeu de estimação e não conseguiu encontrá-lo em parte alguma, tal era a inundação de coisas nas suas próprias coisas.

PS: as suas coisas eram de fato as suas próprias coisas? Ou pelo menos eram suas?

A menina do sétimo andar sentiu. Todas aquelas coisas talvez sempre estiveram lá, mas não incomodavam porque ela nunca precisou procurar nada que fosse somente seu. O camafeu era. E estava difícil de achar. Eu sou meio avessa à ordem, mas nesse caso, eu tenho que concordar com todas os palpites sobre a decoração da casa da menina do sétimo andar: não se encontrava muito que tivesse que ver somente com ela.
Veja. A casa é grande. Os quartos são grandes. A sala é grande. Mas a cama não é. Na cama só cabem dois. Os donos da chave. Senão o amor não vem.

O que ela não podia era ser injusta. Mas o que ela não sabia era mentir. Então, resolveu fazer um evento na casa, convidou os donos de todas as coisas e trocaram presentes a tarde toda. Beberam, riram, se divertiram como era de costume. E era esse o costume: a diversão era lugar-comum. O riso sempre fora contagiante naquele lugar. Era por isso que ela não conseguia se desfazer das coisas que não eram dela. De certo modo, ela começou a amar aquilo que não lhe pertencia e, fazendo isso, tornava-se dona e escrava do que sentia.
Foi uma tarde incrível. No final, Moa se sentia melhor. A casa estava vazia. Pronta pra ser construída em quatro paredes. E duas chaves. Havia uma coisa maior. Havia um Amor ali. Que nunca seria posse de ninguém. Ela não queria possuir. Mas para Moa, a posse é inevitável. Isso deve acontecer com todas as pessoas.

Juro: ela não queria ser egoísta. Ela sabia amar pra fora.
Disse olhando fundo nos olhos dele com a maior sinceridade e com o maior amor do mundo:
“ - Tomara meu Deus, tomara que o nosso amor não pare em nós.”

04 Julho 2008

Sobre a Lei




Entro no elevador. Não, antes de entrar.

Sexta-feira de manhã. Poderia ser o meu último dia de trabalho antes das férias, mas meu chefe me pediu pra vir uns dias na semana que vem também. Tudo bem, é uma missão.

Mas eu to falando da plaquinha do elevador. Mais uma para a série das leis descabidas brasileiras - junto com a das bebida, é claro:
"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar”. Lei nº 9.502/97.
Eu não sabia que era lei, não. Até porque se o cara não verificar “o mesmo”, vai ficar complicado de ele ser preso, ou pagar multa, seja lá o que for...

Mas deixa pra lá. São só pensamentos matinais com gosto de Activia.
Quer outro pensamento?
"Um dia ainda viro notícia."

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