11 Maio 2008

Alice no País dos Espelhos Quebrados




Sabe o que queria? Digo, ela e não eu. Ela queria ser escrita.
Ela queria ser desvendada e recriada em linhas no papel, em linhas na parede, na calçada, na rua. A esquina da sua rua seria o ponto final. E então, ela, que tinha ficado horas ali, na esquina, pensando em seguir ou prosseguir, tomaria uma decisão. Ela ficou meia hora na esquina pensando se deveria seguir ou prosseguir. Não havia palavra em que ela se identificasse: tudo nele eram escritos passados, que voltavam à tona agora, que ele fazia questão de ressuscitar. Ela, que tinha ainda cheiro de flor-de-laranjeira, ficava esquecida e era substituída por aquelas coisas que tinham cheiro de mofo, que tinham cheiro de naftalina.

Olha, veja por esse ponto. Há certas mentiras que deveriam não ser reveladas. Elas deveriam ficar silenciosamente cumprindo o papel a que, por maldição, foram incubidas: o papel de manter cada coisa no seu lugar. As mentiras deveriam ter o seu próprio lugar social, um porão úmido, com ar pesado, paredes de azul turquesa.

Enquanto ela comia um pedaço de pão seco, ela decidiu descer até lá. O que mais ela poderia fazer? É necessário tomar contato com as coisas do mundo. A curiosidade, não pelo fato escrito, mas pelo modo como ele agiu quando ela perguntou. Eu explico: sabe a sensação de que as palavras querem dizer exatamente o oposto do que de fato estão dizendo?
Descer até onde as mentiras jazem fétidas, descer no porão, se misturar com o que subsistia embaixo da terra. Ela fez isso por amor. Cobriu-se com o manto, por conta do seu estômago fraco que ameaçava explodir a cada degrau... ela foi. Mas ela foi por amor, entende?

As mentiras são como super bonder. Elas colam coisas. Elas recortam pedaços e colam novos trechos. Elas colorem o céu de roxo só para me agradar. Mas eu sei que o céu é azul. E o que dói é quando me olham com espanto quando eu reparo uma frestinha do azul que não soube se misturar. Mas pra ela, ali, naquela esquina... ela sabia que não. No trabalho minuncioso de trazer todas as coisas ao seu lugar, alguma coisa ali... ah, ela sabia. Alguma coisa estava faltando.

Era só mais uma mentira no mundo todo. Mas para ela, era como uma tragédia shakespeareana. Do tipo King Lear. King Liar.

“Ah, pequeno erro (...),
Como te mostraste terrível em C.
Arrancando, como numa tortura, minha natureza
De seu lugar devido”

Enquanto ela subia os degraus, a fim de chegar de volta ao térreo, naquelas escadas psicodélicas que pareciam não ter fim, que a transtornavam a mente e que alimentavam um certo desejo infantil de se jogar, um nobre rapaz lhe estendeu a mão. Cordialmente, ela acenou com a cabeça, em sinal de agradecimento – sorrisos não seriam permitidos, não tão cedo, não naquele lugar.
Ela endireitou a roupa, e fez como que ia subir. Ao invés de lhe dar passagem, ele a olhou nos olhos.

- Quando eu quero conversar com a senhorita como uma "somente amiga" – e eu já quis isso -, eu quase odeio seus olhos. Acho que são os únicos pares que me afetam de verdade.

Ela se manteve sóbria. Não havia lugar para isso, para isto, para aquilo, para ele. Ela ficou a pensar, enquanto corria para o topo, se ele também não fosse mais um prisioneiro do porão ou, se como ela, tivesse parado ali por conta de um grande amor. Em todo caso, estavam lá os dois, sem saber como voltar.