31 Março 2008

snowflakes storm




Aquela pergunta me fez vomitar durante toda a última madrugada. Sem uma prévia, ou cabeçalho de introdução, sem um jantar minimamente romântico daqueles com vinho barato até a borda da taça... por que uma pergunta dessas no domingo a noite, uma pergunta tão descabida?

Você se leva a sério, Carolina?

Era só isso. Como assim, era só isso? E era.
Respondi pergunta com outra pergunta porque preciso de tempo para me recompor e porque achei uma ousadia pergunta dessas vinda por e-mail, para desestabilizar domingo, véspera de fim do mundo, de acordar cedo, de estômago doendo antes do almoço, da mesmice incansável que se trata da máquina de fazer relatórios inúteis que é o serviço público.

Eu não levo o meu trabalho a sério. Resposta número 1. Não há motivação outra que não o salário para me prender em uma sala onde eu não tenho lugar fixo antes do almoço. Eu me sinto deslocada e não me identifico com pessoa. É um bom-dia que eu dou de mau humor enquanto ouço uns resmungos de bom-dia mal humorados. É raro um bom dia bom de verdade.
As pessoas são legais, algumas admiráveis. Mas daí o problema é vetorial: são elas que não me levam muito a sério.
E outra: eu finjo muito mal que estou preocupada com algumas coisas por lá, do tipo, a cor da capa do caderno de relatório X.

Estava há pouco fazendo as contas: 25% de semestre já foi pelo ralo e eu ainda não consegui entregar a primeira resenha para o meu orientador – que é pessoa fantástica. Isso significa que eu levo minha vida acadêmica a sério? Acho que não.
É um esforço sobre-humano, digno dos grandes espartanos sanguinários, tentar fechar 37 créditos com boas notas. E sem nenhum motivo palpável, esforço esse arrebatador, que é senão para conseguir terminar a graduação em 4 anos; um ano a menos que os estudantes normais do noturno. O que é mesmo que eu vou ganhar em 1 ano que valha o esforço de 4?
É um sonho, utopia particular, me presentear com um ano de vida, só um ano em uma vida inteira, para viver no lugar e do jeito que eu achar mais encantador. Sabe, às vezes eu penso, e é difícil revelar, que estou sempre canalizando energias em uma coisa que está sempre distante, como se eu precisasse disso para justificar um monte de coisas que, essas sim, deveriam ser levadas a sério.

O foda mesmo é não levar a sério as pessoas que eu escolhi para estarem ao meu lado. De fato, eu não sei muito bem separá-las de mim e então levá-las ou não a sério seria solução para me levar a sério ou não. Elas sim, eu queria saber levar menos a sério, porque chega um dia, sempre esse dia chega, dia de depuração, dia de lavar o tênis sujo, dia de por colchão no Sol, quando a sirene da fatalidade grita que é hora de se desligar. Ilha de tubarão.

É hora de se desligar. Tirar os fios da tomada. Porque aquela certeza que horas antes bem guardada, agora começa a desalinhar. As certezas da vida, todas elas, não cabem dentro de uma caixa enferrujada por sequer um segundo, é o tempo de encostar pra logo querer escapar. Todas as certezas da minha vida querem se esquivar: é o tempo de bater dentro, é o tempo de me mudar, é o tempo de me entregar e então, qual vaga-lume perdido no meio do mato, começar a piscar.

- É estranho, mãe. Eu não conheço mais ninguém.
- Como assim você não conhece ninguém?
- Ah. Não tem nenhum rosto familiar.
- Mas as coisas são assim mesmo: cada um vai embora para outros poderem chegar. O que há de errado nisso?
- É que olhando assim, parece que eu nunca estive por aqui.

Quando acende é desvario, riso alucinado, coração afetado, menino do rio que entende e só faz contentar.
Quando apaga, menino vadio.

Ás vezes quando estou sozinha, somente quando estou sozinha, eu pronuncio seu nome em voz alta. Eu não quero deixar de evocá-lo pelo simples fato de ele haver morrido.
É hora, menina. Entra pra dentro. É hora de se deitar.


A mãe, por exemplo... como levá-la a sério? Não por mim, mas por ela. Faz um mês que voltei pra cá, casa da minha mãe, depois daquele dia, há quase quatro anos, quando cortei todos os fios de todos os aparelhos da sala antes de fugir [ pra nunca mais voltar ]. Quem volta, não tem voto. Não tem muito o que opinar, é aceitar que seja assim, é voltar a desatinar. Porque eu ainda lembro – não sei se gosto disso -: eu, com meus livros, minhas saias hippies e minhas tranças: a única coisa que me acompanha até hoje. A sirene ainda não tocou para elas.

E eu não tinha mais nada. Eu levantei e era só eu e a privada. Talvez essa cena possa dizer algo sobre o fato de eu levar a sério certas perguntas tão sem cabimento.
Eu sou frágil para todas as coisas; mas tenho uma dignidade que me mantém ainda assim sóbria, com aquele olhar firme das baronesas francesas que perdiam tudo, mas não se deixavam tocar nas jóias da família e no sobrenome comprido.


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"If you go/ In the north country far/ Where the winds beat/ Heavy on the borderline/ Remember me to the one/ Who lives there/ She once was a true love of mine"

23 Março 2008

samba


Porque com a Lua também é assim. A mesa face a gente vê toda noite, a mesma face nos segue com os olhos e a gente vai atrás dela como que sem enjoar, só pra ver a magia que dá quando olho de um encontra olho de outro. A gente segue ela até o dia clarear.
Isso é por causa do samba que ela faz: bate o pandeiro e dança do jeitinho que bate aqui na Terra, a roda fica cheia, entra fulano, entra compadre e só no olho quer olhar.

Tem uma hora, momento de grande convicção, quando os olhos se encontram e o samba pára tudo, num deixa sobrar cadinho de gente e é aquele alumiarão grande que deixa sem enxergar até que Deus venha.

E quando o samba pára é porque a Terra pára, e deixa silêncio em tudo o que é lugar. O café pára de esquentar, os grilho, gafanhoto, bicho tudo pára que eu desconfio que é pra admirar. Eita coisa bonita que foi quando você viu que tudo parou assim que você falou que não era dado a chorar, mas que o momento chamou e você jurou me amar. Eita coisa bonita que foi. Porque tudo parou, o mundo saltou, pra poder agora continuar.
And the night was over, and the day began.

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To indo na janela
Me amorenando no Sol
Que não quer anoitecer
Eu cheguei no seu jardim
E um tanto de flores eu ganhei

palavra: eu vou cuidar.

11 Março 2008

É AMANHÃ!





Amoras verdes a caminho de maduras…

04 Março 2008

Ciúmes



Sair de bota na chuva não é tão apropriado. Botas de camurça molham também. Eu queria botas de couro, impermeáveis. Mas eu nunca achei botas de couro impermeáveis. Só tinham as de camurça, e essas não adiantam porque deixam a água entrar. E deixam a água sair.
Enquanto você anda, é um nhec nhec nhec do meu lado, que malditas botas que você usava!, essas malditas botas de camurça.

Você percebeu minha cara de brava. Mas parece que o nhec nhec das botas te passava despercebido, eu olhava com cara feia, e você achou simplesmente que minha internet caiu ou que eu estava tendo um dia ruim.
"Porra! Será que dá pra andar mais rápido?"
Eu sei o que você estava pensando, você e suas botas, em como eu ficava bem molhada, ou em como suas botas lhe caíam bem - molhadas. Pois fique com elas. Você e suas botas e me deixa em paz. São 4 metros de bota. E eu nem ligo.

O prazer, o verdadeiro prazer mora nas botas apertadas. Nas botas apertadas e molhadas de camurça. É assim, você senta, descalça um pé, torce a meia. Aquele pé branco e cozido você mergulha na bacia de água quente, pega a xícara de chá de canela, liga o som e ouve:

boomp3.com

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Sabe o quê? Eu vou comprar uma bota pra mim.
... essas coisas de novas botas, botas de camurça, 4 metros, chuva, chuva, me deixam muito vulneráveis, dá vontade de fugir.
Esse é o post mais ridículo de toda a minha vida. Mas deixa estar.