Aquela pergunta me fez vomitar durante toda a última madrugada. Sem uma prévia, ou cabeçalho de introdução, sem um jantar minimamente romântico daqueles com vinho barato até a borda da taça... por que uma pergunta dessas no domingo a noite, uma pergunta tão descabida?
Você se leva a sério, Carolina?
Era só isso. Como assim, era só isso? E era.
Respondi pergunta com outra pergunta porque preciso de tempo para me recompor e porque achei uma ousadia pergunta dessas vinda por e-mail, para desestabilizar domingo, véspera de fim do mundo, de acordar cedo, de estômago doendo antes do almoço, da mesmice incansável que se trata da máquina de fazer relatórios inúteis que é o serviço público.
Eu não levo o meu trabalho a sério. Resposta número 1. Não há motivação outra que não o salário para me prender em uma sala onde eu não tenho lugar fixo antes do almoço. Eu me sinto deslocada e não me identifico com pessoa. É um bom-dia que eu dou de mau humor enquanto ouço uns resmungos de bom-dia mal humorados. É raro um bom dia bom de verdade.
As pessoas são legais, algumas admiráveis. Mas daí o problema é vetorial: são elas que não me levam muito a sério.
E outra: eu finjo muito mal que estou preocupada com algumas coisas por lá, do tipo, a cor da capa do caderno de relatório X.
Estava há pouco fazendo as contas: 25% de semestre já foi pelo ralo e eu ainda não consegui entregar a primeira resenha para o meu orientador – que é pessoa fantástica. Isso significa que eu levo minha vida acadêmica a sério? Acho que não.
É um esforço sobre-humano, digno dos grandes espartanos sanguinários, tentar fechar 37 créditos com boas notas. E sem nenhum motivo palpável, esforço esse arrebatador, que é senão para conseguir terminar a graduação em 4 anos; um ano a menos que os estudantes normais do noturno. O que é mesmo que eu vou ganhar em 1 ano que valha o esforço de 4?
É um sonho, utopia particular, me presentear com um ano de vida, só um ano em uma vida inteira, para viver no lugar e do jeito que eu achar mais encantador. Sabe, às vezes eu penso, e é difícil revelar, que estou sempre canalizando energias em uma coisa que está sempre distante, como se eu precisasse disso para justificar um monte de coisas que, essas sim, deveriam ser levadas a sério.
O foda mesmo é não levar a sério as pessoas que eu escolhi para estarem ao meu lado. De fato, eu não sei muito bem separá-las de mim e então levá-las ou não a sério seria solução para me levar a sério ou não. Elas sim, eu queria saber levar menos a sério, porque chega um dia, sempre esse dia chega, dia de depuração, dia de lavar o tênis sujo, dia de por colchão no Sol, quando a sirene da fatalidade grita que é hora de se desligar. Ilha de tubarão.
É hora de se desligar. Tirar os fios da tomada. Porque aquela certeza que horas antes bem guardada, agora começa a desalinhar. As certezas da vida, todas elas, não cabem dentro de uma caixa enferrujada por sequer um segundo, é o tempo de encostar pra logo querer escapar. Todas as certezas da minha vida querem se esquivar: é o tempo de bater dentro, é o tempo de me mudar, é o tempo de me entregar e então, qual vaga-lume perdido no meio do mato, começar a piscar.
- É estranho, mãe. Eu não conheço mais ninguém.
- Como assim você não conhece ninguém?
- Ah. Não tem nenhum rosto familiar.
- Mas as coisas são assim mesmo: cada um vai embora para outros poderem chegar. O que há de errado nisso?
- É que olhando assim, parece que eu nunca estive por aqui.
Quando acende é desvario, riso alucinado, coração afetado, menino do rio que entende e só faz contentar.
Quando apaga, menino vadio.
Ás vezes quando estou sozinha, somente quando estou sozinha, eu pronuncio seu nome em voz alta. Eu não quero deixar de evocá-lo pelo simples fato de ele haver morrido.
É hora, menina. Entra pra dentro. É hora de se deitar.
A mãe, por exemplo... como levá-la a sério? Não por mim, mas por ela. Faz um mês que voltei pra cá, casa da minha mãe, depois daquele dia, há quase quatro anos, quando cortei todos os fios de todos os aparelhos da sala antes de fugir [ pra nunca mais voltar ]. Quem volta, não tem voto. Não tem muito o que opinar, é aceitar que seja assim, é voltar a desatinar. Porque eu ainda lembro – não sei se gosto disso -: eu, com meus livros, minhas saias hippies e minhas tranças: a única coisa que me acompanha até hoje. A sirene ainda não tocou para elas.
E eu não tinha mais nada. Eu levantei e era só eu e a privada. Talvez essa cena possa dizer algo sobre o fato de eu levar a sério certas perguntas tão sem cabimento.
Eu sou frágil para todas as coisas; mas tenho uma dignidade que me mantém ainda assim sóbria, com aquele olhar firme das baronesas francesas que perdiam tudo, mas não se deixavam tocar nas jóias da família e no sobrenome comprido.
---
"If you go/ In the north country far/ Where the winds beat/ Heavy on the borderline/ Remember me to the one/ Who lives there/ She once was a true love of mine"


