29 Fevereiro 2008

So much beauty




"Então quando eu estava indo embora, você virou e disse "qwprkqwkrpwrqr", e eu disse "oi?" e você disse "fica aqui comigo hoje..." E eu te olhei no escuro, olhei você um pouco encolhida por causa do mal estar que você devia estar sentindo, e também olhei para as horas no meu celular, olhei você puxando o edredon para eu entrar e pensei... que aquilo, naquela hora, tinha sido a coisa mais bonita que alguém já tinha me dito antes".
(p. 49)


"Sometimes there's so much beauty in the world I feel like I can't take it, like my heart's going to cave in."

19 Fevereiro 2008

When we lose something, we feel lost too.



Não é a porra da opacidade da língua. Nem sei se posso concordar com as teorias lingüísticas que me entoam já desde o fim das férias: as que dizem que a linguagem e, conseqüentemente, o seu entendimento são prenhes de diversos sentidos atribuídos pelos interlocutores numa tentativa sempre frustrada de comunicação pura. Pura no sentido de o que eu quero dizer ser exatamente aquilo que se entender – e não o que se gostaria de entender. O que você entendeu foi exatamente o que eu quis dizer. Eu nunca disse, mas você percebeu do mesmo jeito.

Essa semana eu pensei que a minha bicicleta seria o meu maior rombo no estômago. Aliás, rezo com certo afinco, aqueles dos pagãos com ódio no coração, para que o ladrão uma dia descubra o valor – inestimável – que aquela bicicleta tinha para mim. Não era só uma bicicleta, foi um pouco de mim que o filha da puta levou. Talvez tenha sido bom: memórias em veículos podem causar acidentes até mesmo quando estacionados. Aliás, só de me lembrar da palavra estacionado me dá um pouco de náuseas por conta de uma época que passou, mas que nunca se fez distante. E o que eu vomito não tem nada a ver com bicicleta. Eu vomito sushi.

O ato da perda. Perder coisas que nunca tivemos de fato. Ou tivemos dentro a ótica dialética do movimento gravitacional das constantes de kepler. Eu, Moa, não tive. Como ter sem possuir, sem tocar, sem de fato enfiar o indicador até o fundo do machucado e voltar pra boca ensangüentado? Eu tinha que possuir. Eu tinha medo de possuir. Eu tinha vergonha que tinha medo de possuir. Eu tinha certeza que possuir não seria uma boa, pássaros que voam perdem a cor das penas depois de possuídos, depois de devorados no meu banquete noturno, regado a muita conversa boa, regado a vento de janela aberta, regado a meia luz do abajour acesa. Eu sei que fui eu quem acendeu a luz indireta sobre os corpos flamejantes, mas eu sabia que não seria uma boa idéia possuir. E a posse, para Moa, é inevitável.

E chega o caos. E vem o rebuliço. E você descobre que pode perder coisas mesmo sem as ter possuído. A contaminação vem pelo ar. Não adianta se esconder, não adianta tocar em nada. Faça o seguinte: toque em tudo, com a língua em tudo, fique nu em todos os momentos, toma gelado, não adianta: a ordem da perda não provém de quem possui, mas de quem se assume indignado e se levanta no meio do jantar. E foi assim, no meio do jantar, enquanto terminava minha mordida no sushi, enquanto preparava próxima fala, você se levantou da mesa. E aí eu comecei a vomitar. Mas vomitar o quê? Eu não TINHA NADA no estômago. Eu NÃO TINHA TOCADO na comida. O que seria de nós sem as coisas que não existem?

Os olhares enviesados, os cheiros propositais, as mentiras descaradas, a cor da roupa ousada, o frio repentino e o calor póstumo, as brincadeiras infantis, as fotos maliciosas, os elogios desmedidos, as vontades fora de lugar, a fome exótica, a inteligência artificial, os gostos modelados, ora, o que seria de nós sem as coisas que não existem?


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“Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé”
... ah, oui. Ça c´est vrai.

14 Fevereiro 2008

Slow Motion



O encontro sórdido das palavras com a realidade, ali, bem na sua frente. Foi excelente Anita ter voltado ao universo das artes, das coisas belas e descompostas, da irritante luz que saía por baixo da porta do banheiro enquanto ela tentava dormir mais um pouco. Só mais um pouco. Não dormia muito, ela gostava de se manter acordada durante a noite transformando as palavras sonhadas em realidade e, desde que se mudou do cabaré, era isso o que mais a animava - a ponto de substituir o seu blush matinal com café frio por esse ânimo que não cabia dentro da alma e que também a mantinha acordada e com as bochechas rosas.

Dentro da incoerência das coisas do mundo, pouco se importava com os motivos e conseqüências desse último mês, ela só queria que ele fizesse parte da sua roupa de cama, das suas manhãs com lápis no olho borrado, dos seus gostos pela arte inculta (inculta, mas bela) e de todos os sorrisos que ainda tivesse para sorrir. Um presente: todos os sorrisos da minha vida.
Por exemplo, a nuca. Nada mais excepcional que a nuca dele. E ela que gostava tanto dos quadros de Dali, encontrou na realidade da pintura a possibilidade de tocar. Não deveria tocar as obras de arte, mas era um pecado herético que tinha que ser feito, não pela irresistível vontade do pecado – que sempre a inebriou -, mas pelo apelo da sua própria nuca. Ele sabia, e beijava a outra nuca.

O palco estava cheio e a platéia com os olhos brilhando, todos aguardando o momento, aquele momento de prender a respiração e se preparar para aplaudir.
O diretor não quis assistir. Encostou-se no fundo do teatro com aquele sentimento de poder transformar em realidade aquilo que sempre fora palavras e só palavras. Nem ele cria na prórpia prole, mas ela, quando falava sério, era sério.

O ato de se despedir, a queda pelo movimento celeste, o toque da mão com a mão – a da direita com a esquerda, a da esquerda com a direita.

Ela se mergulhou – de estômago - dentro dagua mesmo sem saber nadar.
Ele olhou apaixonado. Ela retribuiu.
Todos aplaudiram de pé.


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E daí ainda por cima vem o google me dizer: “Happy Valentine’s Day”.
thanks, Google. =]