
Eu queria mesmo era ser paquita. Do tipo, loira, alta, olhos claros, cabelo liso e comprido de dar inveja em todas as baixinhas, gordinhas com dente separado que nem eu. Se eu fosse paquita, eu seria a menina mais popular da minha escola e o Pedro, o menino mais bonito da escola, iria me achar o máximo. O Pedro usa um cabelo com gel espetadinho e parece o carinha da malhação, o Fofuxo (Roger Gobet); além disso, ele anda de skate e sai na capa da revista como o melhor daquele campeonato. Todas as meninas gostam do Pedro.
Um dia eu beijei o Pedro. E acho que posso dizer que namoramos. Naquela idade, as coisas não tinham a seriedade que pairam acima dos relacionamentos. Depois que se faz 20 anos, namorar requer certas doses de companheirismo, fidelidade, carinho e respeito, das quais eu não fazia muita questão. Eu sei que eu cortaria meus pulsos pelo Pedro. Eu lembro toda a intensidade de sentimentos, e cartas, e músicas que fizeram parte daquela época.
A menina mais bonita da escola mesmo era a Micheli. Ela era igual a paquita. Filha única, usava as roupas mais legais do colégio. E era modelo. Acho que ela nem se dava conta do que acontecia no corredor depois que ela passava: todos os meninos meio que respiravam o ar que ela contaminava. Eu era amiga dela, mas, no fundo, eu acho que a odiava. Aliás, eu odiava todas as meninas que eram mais bonitas que eu – o que, no caso, eram muitas.
Sábado passava o programa da Xuxa para me zangar o coração. Além disso, as paquitas usavam um shortinho super curto (sem falar nas mini-saias da própria Xuxa), enquanto eu, com o joelho todo ralado de tanto cair de bicicleta e ficar soltando pipa até tarde, usava uma calça até a canela e uma camiseta emprestada dos meus primos. Aquilo não fazia muita diferença para mim, mas aos poucos e muito cedo, eu fui-me dando conta de que a feminilidade não me era própria. E, além disso, a raiva que eu sentia das meninas era, na verdade, porque eu estava apaixonada por elas: aqueles shortinhos das paquitas mexiam muito comigo, a ponto de eu vê-los ou imaginá-los nas minhas amigas. Talvez essa onda de homo/bissexualismo atual seja por conta dos programas da Xuxa. Talvez, nada! Eu tenho certeza que é: aflorou uma sexualidade inerte dentro dos fãs da loira belzebu.
Mas veio o Pedro. E ele dividiu um pouco as coisas. Eu comecei a pentear o cabelo para ir na aula, a usar sutiã (ao invés dos coletes) e entrei para o time de vôlei das super pops do colégio. Tudo foi para que ele olhasse para mim, mas me fez um bem imensurável. De alguma forma, todos os meus namorados contribuíram para a mulher que eu sou hoje. Se eu nunca tivesse namorado meninos, eu seria um tipo bem estranho hoje em dia. O meu último namorado, por exemplo, me fez gostar de maquiagem e de salto alto; enquanto o penúltimo me ensinou uns toques de como falar como uma garota. Aí é que me veio a sensação de que s sexualidade é uma coisa completamente social e que a idéia de o ser humano nascer com tendências bissexuais é perfeita. Sinceramente, me dá certa angústia em pensar como o meu próximo namorado me fará mais mulher; será que eu vou pintar o cabelo de loiro e comprar um fusca rosa?
Foi muito estranho encontrar o Pedro depois de tanto tempo. Depois de sete anos. É como se ele fosse uma ligação minha com tudo aquilo que eu não sou mais, com tudo aquilo de que eu nem faço questão. Ele me disse: “Você mudou muito”. Eu fingi que eu não ouvi. Mas sei exatamente do que ele está falando: eu sou quase uma paquita.