27 Novembro 2007

Nosso Pretérito Mais-que-Perfeito

Quanto mais fico longe, mais penso nele e, contra todos os propósitos da razão, quanto mais penso, mais devo ficar longe dele.



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(Esse foi o primeiro texto de amor que publiquei. Dia 27 de junho de 2005.)
boomp3.com

"Igual a uma noiva, exatamente igual a uma noiva, pensava Pedro Bala, estendido na areia. A lua amarelava o areal, as estrelas se refletiam no mar azul da Bahia. Ela veio, deitou ao lado dele. E começaram a falar de coisas tolas. Igual a uma noiva. Não se beijaram, não se abraçaram, o sexo não os chamava naquele momento. (...)
Riram os dois e logo foi uma gargalhada. Era um hábito dos Capitães da Areia. Ela começou a contar coisas do morro, histórias dos vizinhos, ele relembrava fatos da vida agitada do grupo:
- Vim pra aqui com cinco anos. Menor que teu irmão...
Riam inocentemente, felizes de estarem um ao lado do outro. Depois o sono veio. Estavam separados, Pedro tomou a mão dela, segurou. Dormiram como dois irmãos."
- Capitães da Areia, Jorge Amado


Por muito tempo eu escrevi sobre amor. E por vezes, duvidando de sua existência, ri descaradamente dos seus princípios, zombei de suas fraquezas e disse numa poesia que amor era amizade; e todo o resto, fantasia.
Ontem eu visitei o fundo do mar e encontrei enfiado num coral um broche de namorado. Foi difícil arrancá-lo de lá. O broche havia se acostumado a lá dormir. E depois que zanzei entre todas as correntes marítimas, certa de que nada mais me interessava por lá, resolvi voltar para a minha caverna à meia-lua e saber o paradeiro daquelas fotos que estavam contidas no broche.
Tentei imaginar o que fazia uma menina de olhos grandes com o rapaz sonolento, mas minha imaginação anda cada vez mais falha, tal que tive de recorrer a senhora coruja para me sanar a curiosidade.
As pessoas acham que as corujas não têm casa. Pensam todos que vivem por aí, sem rumo e, quando em vez aparecem numa árvore para avisar do perigo da Lua cheia. Pois eu digo que a casa da coruja é uma coisa sinistra. Há uma lareira no meio da sala de estar e quadros surrealistas espalhados nas paredes de tijolo à vista. A sombra que o crepitar do fogo projeta nos quadros mostra o que de forte há na alma de cada um. Contam os animais que certa vez o gato, quando esperava a coruja na sala, foi espiar sua sombra projetada pelo fogo. E ficou tão assustado, tão horrorizado que se atirou da janela, tentando se matar. E há quem diga que as fadas o ajudaram e dotaram os gatos para que caíssem todos de pé. E é por isso que gato sempre cai de pé. Mas eu não acredito nisso não.
Está certo que sequer espiei minha sombra, mantinha os olhos cravados naquela lambeção incessante do fogo na parede. Será que ela não se incomodava com tanta lambeção? Todas as noites, lareira acesa, começa o fogo a passar sua língua de leve na parede. E, ao invés de molhá-la, a mantinha quente durante toda a noite. Mas sol nasce, fogo apaga, lareira esfria. Sabe por que o amor entre lareira e fogo não vinga? Porque embora o fogo toda noite venha dar seu calor à lareira, ela sabe que isso se repetirá incessantemente durante todo o inverno. E o fogo realiza seu trabalho automaticamente. Caso a lareira se esquecesse por uma noite que o fogo irá consumi-la e o fogo fosse formado espontaneamente, ah!, não haveria amor mais forte que o deles. Porque o que importa no amor é a incerteza.
O princípio da incerteza de Heisenberg diz que não se podem medir com segurança as propriedades básicas do comportamento subatômico, pois todos os métodos usados para medir a posição e velocidade de um elétron, por exemplo, faz com que este mude sua posição.
O principio da incerteza do Amor diz que não se pode medir com segurança as propriedades básicas do comportamento de um casal, pois eles o fazem espontaneamente, sem seguir qualquer padrão possível observável e, caso isso acontecesse, não mais seria amor e toda a matéria apaixonada se colapsaria numa grande implosão de sentimento.
Ouvi passos chegando a mim, era a coruja. Sentamos, ela me ofereceu uma xícara de chá de canela. A dança do vapor de água me lembra Valsa das Flores, de Tchaikovsky, mas isso pouco importa, o que me importava era descobrir o fim daqueles olhos profundos e daquele rapaz que ficava tão bem dormindo. Ela me olhou pesarosa, com aqueles olhos de quem sabe muito, e disse com sua voz rouca: "Eu não sei". Aquelas três palavras ditas tão francamente soaram e ressoaram na minha alma durante um tempo. Terminamos o chá em silêncio, cada uma de nós abaladas pela inexistência de resposta. Porém, imaginávamos histórias diferentes, calcadas numa aventura no fundo do mar, uma viagem nas estrelas, um amor impossível. Talvez realmente poderia ter sido verdadeira uma dessas histórias, mas o amor é bem simples. Não precisa de muita pressão. Porque a maior de todas aventuras é estar vivo e isso basta.
Na volta para minha caverna, o luar ilumina as duas fotos. Aquele cheiro de relva fresca de madrugada fez com que eu parasse e abrisse o broche. Aquelas duas fotos eram realmente lindas e percebi que o amor é formado de coisas lindas.

23 Novembro 2007

Devaneios que poderiam se tornar realidade I

Mal conseguia enxergar as coisas naquele buteco.
Bêbada, maquiagem borrada, dignidade perdida.
Ele estava me olhando há um tempão. Chegou bem perto e disse:
"O seu sorriso é igual ao da Elis"




...ele não deveria ter dito isso. Vou ficar metida para sempre.