
[antes de ler, assista: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=5124, de Rafael Figueiredo]
“Deseja salvar as alterações em Documento 1?”.
Não. E tudo foi embora. Mas como não passa, volto ao teclado.
Meus professores insistem que o sujeito é atravessado por todos os discursos que, de alguma forma, soaram dentro de sua vida. Eu explico: a ideologia do sujeito é formada por tudo aquilo que ele ouve e ouviu e não há muito o que ele pode fazer além de reorganizar esses discursos já-ditos de uma forma particular. Conclusão: não existe de fato uma identidade criativa como se entende a criatividade hoje; cada um é capaz de fazer coisas diferentes porque o contato que tiveram com determinados discursos é que o torna singular.
Isso é abominável, mas real. Além do fato de colocar o discurso como máxima do universo, parece que não há uma atitude de volição do próprio indivíduo em absorver (ou não) os discursos que o circundam – e ao mesmo tempo, circunscrevem. Qualquer tipo de liberdade é posta à prova frente a uma teoria como essa, que adentra com força os pesquisadores mais renomados da mais renomada universidade do país. Isso me incomoda. Até as nossas membranas plasmáticas são seletivas!
O contato com o outro, a interação, é base primordial para a constituição da ideologia e da cognição complexa. Se vejo uma carteira na rua com documentos e dinheiro, não é a minha honestidade que me fará devolvê-la, mas, se entregar ao dono, é porque os discursos com os quais tive contato e boa apreciação de valor – por parte do outro (pai, mãe, etc) - foram aqueles de honestidade; caso contrário, os meus discursos formadores podem ter sido do tipo “se ele deixou cair é porque não precisa” ou “preciso mais do que ele” e aí gasto tudo com doce na padaria. A honestidade não existe. A criatividade inata não existe. É tudo um emaranhado de coisas que se misturam e se particularizam dentro da mesmice. E não há quem não queira ser igual. Ser diferente é bom por conta dos discursos de “inovação” pelos quais somos baleados a todo instante.
Logo, o normal é ser diferente. Diferente na medida do comum, vá lá. Nada de usar cueca na cabeça! Seja moderado dentro dessa esfera enunciativa da (comun)idade: seja arrojado, use roupas da moda, lute por uma causa diferente, tenha uma religião esquisita e troque seus hábitos alimentares com certa freqüência.
Será que há como fugir do que é comum? Deve haver, não é possível, alguma coisa não-discursiva – que seja a alma, pronto – que trate de fazer com que Virgínia não passe. Talvez isso chama caráter.
Eu não me contento com o discurso.
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Há quem diga que o que fiz agora foi justamente dar imortalidade a um discurso. Quem já leu Foucault pode concordar. O discurso do filme gerou um comentário e gerará outros infinitos outros, até mesmo o meu comentário gerará outros e entrarei, assim, amarrada, na Ordem do Discurso.
[merda.]