26 Outubro 2007

A Peste do Discurso


[antes de ler, assista: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=5124, de Rafael Figueiredo]

“Deseja salvar as alterações em Documento 1?”.
Não. E tudo foi embora. Mas como não passa, volto ao teclado.

Meus professores insistem que o sujeito é atravessado por todos os discursos que, de alguma forma, soaram dentro de sua vida. Eu explico: a ideologia do sujeito é formada por tudo aquilo que ele ouve e ouviu e não há muito o que ele pode fazer além de reorganizar esses discursos já-ditos de uma forma particular. Conclusão: não existe de fato uma identidade criativa como se entende a criatividade hoje; cada um é capaz de fazer coisas diferentes porque o contato que tiveram com determinados discursos é que o torna singular.

Isso é abominável, mas real. Além do fato de colocar o discurso como máxima do universo, parece que não há uma atitude de volição do próprio indivíduo em absorver (ou não) os discursos que o circundam – e ao mesmo tempo, circunscrevem. Qualquer tipo de liberdade é posta à prova frente a uma teoria como essa, que adentra com força os pesquisadores mais renomados da mais renomada universidade do país. Isso me incomoda. Até as nossas membranas plasmáticas são seletivas!

O contato com o outro, a interação, é base primordial para a constituição da ideologia e da cognição complexa. Se vejo uma carteira na rua com documentos e dinheiro, não é a minha honestidade que me fará devolvê-la, mas, se entregar ao dono, é porque os discursos com os quais tive contato e boa apreciação de valor – por parte do outro (pai, mãe, etc) - foram aqueles de honestidade; caso contrário, os meus discursos formadores podem ter sido do tipo “se ele deixou cair é porque não precisa” ou “preciso mais do que ele” e aí gasto tudo com doce na padaria. A honestidade não existe. A criatividade inata não existe. É tudo um emaranhado de coisas que se misturam e se particularizam dentro da mesmice. E não há quem não queira ser igual. Ser diferente é bom por conta dos discursos de “inovação” pelos quais somos baleados a todo instante.
Logo, o normal é ser diferente. Diferente na medida do comum, vá lá. Nada de usar cueca na cabeça! Seja moderado dentro dessa esfera enunciativa da (comun)idade: seja arrojado, use roupas da moda, lute por uma causa diferente, tenha uma religião esquisita e troque seus hábitos alimentares com certa freqüência.
Será que há como fugir do que é comum? Deve haver, não é possível, alguma coisa não-discursiva – que seja a alma, pronto – que trate de fazer com que Virgínia não passe. Talvez isso chama caráter.
Eu não me contento com o discurso.

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Há quem diga que o que fiz agora foi justamente dar imortalidade a um discurso. Quem já leu Foucault pode concordar. O discurso do filme gerou um comentário e gerará outros infinitos outros, até mesmo o meu comentário gerará outros e entrarei, assim, amarrada, na Ordem do Discurso.
[merda.]

12 Outubro 2007

my last goodbye



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Eu tinha te prometido nunca ir embora. E eu não sei na verdade quem partiu primeiro. É uma mania achar que é culpa minha, então que assim seja: fui em quem arrumou primeiro as malas cheias de torta de limão congelada e brincos de pena.
O que eu vejo agora é uma poça de torta derretida e um monte de anéis de brilhantes. Eu não consigo esquecer. Enquanto eu espero o ônibus eu entôo canções antigas, canções bonitas com a minha voz meio desafinada, meio apertada de choro. Mas eu não choro.
É difícil me virar completamente sozinha agora, eu acabei de fazer 21 e fiquei esperando você ligar. Eu fiquei esperando você quando de repente outra pessoa ligou. Eu não atendi porque eu não consigo esquecer. Está tudo diferente por aqui, são outros rostos, outras pessoas, outra vida e eu sou uma outra, avessa, estranha a mim mesma. Ninguém pode fazer nada. São coisas do destino.
Eu tenho a impressão que sem você está tudo errado. Eu fico errada e sem rumo e me transformo numa consumidora ridícula de bolsas kipling, mesmo tendo prometido nunca ir embora.
A minha mão ainda tem um pouco de cuspe. Ela nunca seca porque eu nunca lavei.
Eu sei que você também deve saber que só é legal o som de gaita, que só são inteligentes os filmes mais diferentes, que só é bonito usar saia colorida, que só é gostoso passear no parque, que só é confortável andar descalço e que só é interessante conversar com você.

Estou com saudades. Mas eu não vou falar nada, porque você deve imaginar que eu não consigo esquecer.
Por favor... nunca me responda essa carta.