27 Setembro 2007

O genial Cap.20 - Clube da Luta

Um pouco de ensinamento do mestre Durden não faz mal a ninguém. Eu espero que gostem do copyleft sem direitos autorais.


As lágrimas começam a aparecer agora, e um fiapo de banha se enrola no cano do revólver, faz a volta na alça do gatilho e espalha gordura no meu dedo indicador. Raymond Hessel fechou os olhos quando pressionei o cano da arma em sua testa para que ele sentisse a arma, eu estava do lado dele, era a vida dele e ele podia morrer a qualquer momento.
Não era um revólver barato, e eu me perguntei se o sal não ia estragá-lo.
Tudo foi tão rápido, pensei. Fiz tudo o que o mecânico mandou fazer. Por isso tive de comprar um revólver. Essa foi a minha lição de casa. Cada um tinha de trazer para Tyler doze carteiras de habilitação. Isso era a prova de que cada um fizera doze sacrifícios humanos.
Nesta noite, estaciono o carro e fico por ali esperando que Raymond Hessel termine seu turno da noite na Korner Mart, e lá pela meia-noite ele está esperando o ônibus noturno quando eu surjo e digo, alô.
Raymond Hessel não diz nada. Deve ter pensado que eu queria o dinheiro dele, quase nada, os catorze dólares que ele tinha na carteira.
Oh, Raymond Hessel, com todos os seus 23 anos de idade, quando você começou a chorar, as lágrimas rolando pelo cano da minha arma encostada na sua fronte, não, isso não tem nada que ver com dinheiro. Nem tudo tem que ver com dinheiro.

Você nem me cumprimentou.
Você não é essa sua patética carteirinha.
Eu disse: bonita noite, fria mas limpa.
Você nem me disse oi.
Eu disse: não corra ou vou atirar nas suas costas. Eu apontava a arma e usava uma luva cirúrgica, porque se a arma viesse a se tornar a prova A, não haveria nada nela senão as lágrimas secas de Raymond Hessel, caucasiano, 23 anos, sem marcas de identificação.
Então eu chamei a atenção dele. Tinha olhos tão grandes que mesmo sob a luz da rua via-se que eram verdes.
Você foi se inclinando para trás com a arma encostada em seu rosto, como se o cano estivesse ou muito quente ou muito frio. Até eu dizer pare, então você deixou a arma encostar, mas mesmo assim conseguiu desviar a cabeça do cano. Você me deu a sua carteira como eu pedi.

Seu nome era Raymond K. Hessel na carteira de habilitação. Morava na 1320 SE Benning, apartamento A. Devia ser um apartamento no porão. Geralmente eles recebem letras em vez de números.
Raymond K. K. K. K. K. K. Hessel, eu estou falando com você.
Você tentou desviar a cabeça da arma e disse sim. Você disse que morava no subsolo.
Tinha também algumas fotos na carteira. Era a sua mãe. Não era fácil ter de abrir os olhos e ver a foto da mamãe e do papai sorrindo e ao mesmo tempo ver a arma, então você fechou os olhos e começou a chorar.

Você ia morrer, o fantástico milagre da morte. Num momento é uma
pessoa, no momento seguinte é um objeto, e mamãe e papai vão ter de chamar um velho médico qualquer e olhar sua ficha dentária porque não vai sobrar muita coisa do seu rosto, e mamãe e papai esperavam tanta coisa de você, não, a vida não era justa, e agora acontecia isso.
Catorze dólares.
Esta, pergunto, esta é a sua mãe?
É. Você chorava, soluçava e chorava. Você engoliu. É.
Você tinha um cartão da biblioteca. Tinha um cartão da locadora de vídeo.
Um cartão do seguro social. Catorze dólares em dinheiro. Eu quis pegar os passes de ônibus, mas o mecânico disse para tirar só a carteira de habilitação. Uma carteira vencida da comunidade de estudantes universitários.
Você estudava alguma coisa.

Neste momento, você ameaçou uma crise de choro, então eu pressionei
mais o revólver no seu rosto, e você começou a se afastar até eu dizer pare ou morre agora mesmo. Então, o que você estudou?
Onde?
Na faculdade, eu disse. Você tem carteira de estudante.
Ah, você não sabia, soluça, engole, funga, qualquer coisa, biologia.
Ouça bem, você vai morrer, Raymond K. K. K. Hessel, agora. Pode ser em um segundo ou em uma hora, você decide. Então minta para mim. Fale a primeira coisa que passar pela sua cabeça. Realize alguma coisa. Não estou ligando a mínima. Sou eu que estou com a arma.
Finalmente você me ouviu e saiu da pequena tragédia que imaginava na sua cabeça.
Preencha os espaços. O que Raymond Hessel quer ser quando crescer?
Ir para casa, você disse que só queria ir para casa, por favor.
Besteira, eu disse. E então, como gostaria de viver? Se pudesse fazer qualquer coisa.
Realizar alguma coisa.
Você não sabia.
Então você já está morto, disse. Agora vire a cabeça.

A morte vai começar em dez, em nove, em oito.
Veterinário, você disse. Você queria ser veterinário.
Isso envolve os animais. Você tem de ir para a escola para isso.
Envolve muita escola, você disse.
Você poderia estar na escola rachando de estudar, Raymond Hessel, ou estar morto. Você escolheu. Enfiei sua carteira no bolso de trás da sua calça.
Então você resolveu ser médico de animais. Tiro a boca da arma de um lado do rosto e pressiono o outro. É isso o que você sempre quiquis ser, dr. Raymond K. K.K. K. Hessel, um veterinário?
É.
Sem brincadeira?
Não. Não, você corrigiu, sim, sem brincadeira. Sim.
Okay, eu disse, e pressionei a ponta úmida do cano na ponta do seu queixo, depois na ponta do seu nariz, e em todo lugar que encostei a boca do cano deixei um anel molhado das suas lágrimas.
Então, eu disse, volte para a escola. Se você acordar amanhã cedo, dê um jeito de voltar para a escola.
Encostei a boca do cano molhada em cada lado do rosto, depois no seu queixo, e então na sua testa e deixei a marca do cano nela. Você poderia estar morto agora, eu disse.
Vou pegar só a sua carteira de habilitação.
Sei quem você é. Sei onde mora. Vou ficar com a sua carteira e vou checar as informações a seu respeito, senhor Raymond K. Hessel. Daqui a três meses, depois daqui a seis meses, depois daqui a um ano, e se você não voltou para a escola para ser um veterinário, será um homem morto.
Você não disse nada.
Se manda daqui e vai cuidar dessa sua vidinha, mas não esqueça que estou de olho em você, Raymond Hessel, e prefiro matar você a vê-lo trabalhando num emprego de merda só para ter dinheiro para comprar queijo e assistir a televisão.

03 Setembro 2007

Timidez



Foi um encontro meio solitário. Já de longe vi que éramos os únicos da rua e fazia silêncio total.

Fomos nos aproximando, cada qual com seu ritmo de passada. Chegou bem perto... Até que ele olhou, eu olhei. Prontamente baixamos as cabeças.
Eu levantei, ele me olhou de novo e coçamos o nariz ao mesmo tempo. Que embaraço!

Continuamos andando, cada qual pro seu lado - oposto. Mas eu tive uma vontade enorme de me esconder embaixo da terra.