21 Maio 2007

Coisas de FIM DE MUNDO


Quem mora sozinha tem de fazer suas compras sozinha - no sentido by yourself, não alone. Mas alguns amiguinhos imaginários me fazem companhia durante o percurso no supermercado. Um deles se chama “discurso ecológico” por parte de mãe e “politicamente correto” por parte de pai.

O detergente Ipê custa R$0,89 (para os clientes Pão de Açúcar). Tem um monte de opções de cheiros. Mais embaixo, há uma marca diferente que custa R$2,95! Dois e noventa e cinco! Mais que o triplo daquele que a Suzana Vieira teima em dizer o melhor... Fui conferir.
Hmmmmmm... É que aquele mais caro é biodegradável. Cheiro horrível, mas biodegradável. Mais caro, mas biodegradável. Qual eu escolho?
É claro que fiquei com o fedido-biodegradável. Eu não escolhi nada. Meu amigo imaginário é que enfiou no meu carrinho aquele tubinho fedido e eu saí achando que escolhi a coisa certa, saí me achando A cidadã, sem me dar conta de que a manipulação tomou formas e cores em cima da minha cabeça com tranças. Há maneiras de se moldar o que não percebemos. Há dez anos, por exemplo, essa coisa de quantidade de calorias não existia, assim como esses discursos ecológicos ou anti-tabagistas. Esses discursos que se vão construindo e se formando são tomados como verdade com o tempo, de maneira que, de tanto martelar, uma hora fazem tanto sentido que acabo achando que são meus, frutos da minha escolha.
Mas não há mais nessa vida cotidiana moderna sequer um momento de escolha. Temos amigos imaginários que povoam todas as nossas ações e transpassam todos os nossos pensamentos de forma muito inteligente. Não é necessário ter uma intuição fenomenológica, uma pegada hermenêutica ou uma apreensão espontânea da essência do tifo para ser afetado por essa doença. É simples assim: nascemos, assistimos Domingo Legal, Laços de Família, Big Brother Brasil e amadurecemos a idéia de que o bom é ver quantas calorias tem em cada porção de comida, é usar a mesma roupa que a Gisele, é vestir rosa porque é a cor do inverno 2007, é botar uma flor na cabeça para ficar igual a Íris, é queimar a testa com chapinha para alisar o cabelo, é deixar a filhinha transar com o namorado porque na novela das oito é assim, etc etc etc.
Há um sentimento de vazio enorme e impreenchível na sociedade atual: não adianta colocar 400 ml de silicone ou comprar uma Victor Hugo da nova coleção, porque toda essa engenhosa maquinaria da mídia se preocupa em tornar todas as coisas efêmeras e, antagonicamente, adiantar que a felicidade é o preenchimento completo e eterno do vazio. Qual é o problema do vazio?
O ser humano, como algo inacabado, jamais será completo; isso é um axioma. Não adianta buscar no prazer a completude infinita. Deixa a tristeza tomar conta, saiba conviver com o vazio. A cada mil lágrimas sai um milagre, diz Zélia Duncan. Não é pessimismo, juro! O que há é uma aversão a tudo o que faz sofrer, aversão a dor de maneira geral e, sequer se percebe que a dor é uma característica tão instintiva quanto os impulsos sexuais. Mas nããããããão. Se você fica triste, já vem alguém “por que você está com essa cara?”, “não fica assim, não”, “sorria para vida”, já vem um monte de mensagens em power point com fundos de uma natureza irreal para mostrar o quanto é necessário ficar feliz todo o tempo. E assim, sendo obrigada pelos amigos imaginários a ficar feliz, quando não se consegue atingir essa felicidade ininterrupta, finda-se por criar toda uma geração prozac, drogada e alcoólatra.

O processo midiático funciona em fazer um duplo freudiano do objeto-desejo. Um vestido Colcci é muito mais que o vestido material que está na vitrine: ele se duplica no imaginário e adquire uma forma sublime, o sujeito se projeta nesse imaginário e constrói um mundo de possibilidades fascinantes, para o qual o vestido abriria portas. Há uma manipulação inconsciente que eu não sei dizer de fato se é boa ou ruim ou para qual lado ela é boa ou ruim. Mas existe. E não há a mínima chance de se dizer que se comprou tal objeto porque gostou, como sujeito ativo do processo, mas antes, o objeto gostou de você.
E olha que eu falo aqui de coisas menos assustadoras como a compra de um inocente (?) vestido. Há por aí amigos imaginários “sujeira”. Aqueles que adentram, por exemplo, não o supermercado ou o shopping center, mas a política. Eu me preocupo é com a maioria e não com a minoria. Me preocupa (não consigo ser enclítica) é a maioria esmagadora que, por exemplo, reelegeu o Lula para presidente. E essa escolha não foi pela proposta educacional, pelo avanço tecnológico (e nem poderia, haja vista nosso excelentíssimo ministro da tecnologia que mal sabe falar em público) ou pelo conteúdo do PAC. É que o Duda fez um bom trabalho. A figura do Lula, como referência a um trabalhador, um ex-torneiro mecânico, “gente como a gente”, é o duplo freudiano que perdura no imaginário popular. Pode vestir ternos Armani, usar relógios caríssimos e só andar nos jatinhos particulares! Não adianta: a figura do Lula já está criada, há uma identidade que os amigos imaginários criaram ecoando dentro de cada um. A eleição é também uma compra. Parcelada em quatro anos. E os juros podem ser mais altos que a taxa de 12,5%.

(final do texto sem cara de final. meu protesto.)
(quem sabe casando cura... ninguém sabe o que procura)

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PS: ainda sobre o Ipê. Ao ler o rótulo do produto, dizia que também continha substâncias biodegradáveis. Só não estava estampado na cara do produto. Daí levei.

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POST PATROCINADO POR “Paquera no Bandejão”

- Posso segurar sua bandeja?
- É claro... Você prefere suco ou chá?

14 Maio 2007

actor et reus idem esse nonn possunt



Aquela mania de olhar para janela era mesmo uma grande maldição. Mas de certa forma, coisas de dentro da sua nova casa aconteciam e se ligavam de certa forma ao que se passava, ao que já se passou um dia nos arredores daquela viela mal iluminada. Toda vez que isso acontecia, ela corria para a janela dar uma olhadinha.
E via que nada tinha mudado. Anita não era mais a prostituta tísica dos velhos tempos: decidiu tomar ares frescos e o vento da montanha fazia bem para a sua pele, de forma que toda a sua essência embolorada se esvaía nas altitudes.
Resolveu que era suficiente todo o dinheiro que havia guardado durante anos de solidão e decidiu tomar um outro rumo, decidiu acender a luz e comprar uma cortina. Seus cabelos antes compridos, agora estavam na altura do ombro, toda aquela maquiagem de luxo tinha ficado no quarto do cabaret: o blush rosa, as fivelas cintilantes, o batom escarlate, tudo, tudo tinha ficado para trás. Trouxe consigo somente o seu lápis de olho porque lhe dava um ar esfumaçado.

No dia da grande mudança, lembrou-se da fita de cetim da gueixa e de todos os olhares de desdém que ela lhe lançou e de toda a inveja que sentiu por conta disso. Agora ela era outra, nova, perfumada de jasmim – e não de colônia. Vestia um sapato preto baixo de camurça e um vestido vermelho curto, bem acima do joelho. O cabelo novo, a maquiagem nova, as roupas menos decotadas deixavam Anita animada, ela tinha um sonho, ela sonhava alto. E por isso foi morar na montanha.

Foi necessário um único carro. Mas antes de partir, pediu ao cocheiro que lhe levasse para a rua do mercado, onde a gueixa costumava ficar admirando plácida as capas de revista. Era um deleite sórdido aquele, e ela sabia que traria más recordações, que lhe faria mal, que quando chegasse a noite, estaria só, não haveria Sol, nem coche e nem mais ninguém além dela e das recordações. Mas afinal, quem é mesmo o anti-masoquista? Quem é que adia alegrias em busca de um bem maior, quem é não gosta de comer antes a cereja do bolo, e ficar só com ela? Ou ainda, quem prefere devaneios noturnos sem propósito à dureza da realidade?
Ela TINHA de ir ao mercado, nem que fosse para saber se a gueixa havia arruinado sua pele com os doces de final de ano. Era uma mania de comparação.

Eu, como amo Anita de todo coração, entendo. Entendo porque amo. E só assim consegui segurar firme vendo a sua cara de desconsolada quando encontrou a rua do mercado vazia. A pequena vila transformou-se, com a chegada dos novos franceses, em um centro de mercado respeitável e não eram mais possíveis as negociações naquele pequeno quadrado fedendo a peixe podre: mudou-se. Era agora na praça principal, à esquerda da Igreja Santa Carolina, onde se faziam as transações.

Estava tudo vazio. Um cachorro acorrentado num poste latia para ela, dizendo: “Vá donzela! Vá embora porque tudo se esgotou. Já não há mais gueixas, nem mercado, nem fitas de cetim. Não há mais nada. Vá pequena donzela!”. E ela foi.

Não era um caminho difícil. A subida tinha toda uma série de fotografias magníficas que ecoavam dentro do seu peito e sustentavam a sua decisão solitária de se mudar. Havia naquela paisagem, naquela natureza uma aura confortável, como deve ser a mão de um pai, eu acho.
Deixou os empregados dentro da casa que um dia ela descreverá e saiu em procura de vizinhos. Era uma parte vazia e afastada da cidade, mas qual foi a sua surpresa quando encontrou num casebre a duas quadras da sua casa a figura que melhor conhecia: aqueles dois olhos puxados, aquele cabelo comprido trançado sob ombros fracos e um jeito firme de encaixar o quadril.
A figura da gueixa a perseguia por todos os lugares. Ao invés de se conformar com isso, Anita quis descer e acabar com tudo aquilo, tocar no que fosse preciso para acreditar que não era alucinação.
Mas não conseguiu. Não conseguiu estacionar. Anita não podia estacionar. E lhe soprou um beijo não-estacionado.

08 Maio 2007

PIQUE-ESCONDE


É uma mania trágica essa minha, de me encontrar com o medo todos os dias. É uma mania tanto perigosa como masoquista mas são esses encontros que, de certa forma, fazem com que se perca o próprio medo do medo. Eu sei disso porque quando eu era criança, naquela época de 8 anos de idade, quando o mundo se abre com todas as cores e sombras, o real e o imaginário, tudo o que pode acontecer junto com o que certamente acontecerá...
O que eu guardo são as videiras que cobriam todo o jardim de casa. Era uma época em que todos os dias eu saía e brincava com os amiguinhos do bairro à noite contando milhares de histórias de terror. Foi aí que eu descobri a quinta dimensão, os espíritos. [Não, não vejo espíritos.]
As histórias que a gente contava estavam repletas da noite e do oculto perseguindo quem os procurava, os contadores das histórias. Eu morria de medo na hora de dormir de tudo o que eu tinha falado, ouvido e inventado, assim como costuma acontecer até hoje com os filmes de terror: eu morro de medo na hora de dormir. Mas a curiosidade é tão grande, tão maior que eu, que eu precisava ouvir mais, mais, mais...
Eu lembro que na época de férias, a minha irmã não estava em casa e sempre voltava sem companhia quando ficava até tarde "na rua". Ao passar pelo portão, tinha todo esse jardim de videiras e pés-de-um-monte-de-coisa pelos quais eu TINHA que passar para chegar até a porta de casa. E daí que eu ouvi alguma coisa lá de trás da bananeira, eu acho. Pensei no meu cachorro, o Tocco, mas eu chamava e nada acontecia. Minhas pernocas ficaram muito bambas, aquele frio na barriga que todo mundo sabe como é, o rosto ardendo...

Eu simplesmente não conseguia sair de lá.

Eu PRECISAVA VER que não era nada, eu continuava lá, chorando de medo, sozinha, sem chamar ninguém até que eu descobrisse que era tudo coisa da minha cabeça. A minha imaginação é algo que me assombra muito: se eu deixar as interpretações por conta dela, cada acontecimento toma tal importância que, com o tempo, passa longe de ser um acontecimento real e se torna uma obsessão, se torna algo muito além, como um mito.
Eu agachei no chão chorando baixo. E falava: "aparece, aparece que eu quero ver!" e tripudiava "cadê que não vem?". E não era nada. Minha mãe perguntou o que eu estava fazendo quando saiu para me chamar. E eu disse que estava "desfazendo uma imaginação".
Sempre ganho dos meus medos.

E daí que nunca mais eu saí de perto deles. Eu tenho cá perto todos os meus medos, sob meu controle. Se algum deles escapar, a minha imaginação se encarrega de superá-los e torná-los maiores que eu mesma.

E é assim até hoje. Foi preciso me encontrar com você muitas vezes, olhar sua cara sob todos os ângulos que eu era capaz, verificar a medida do seu corpo, a sua altura, a rigidez da sua cintura para que acreditasse que não era melhor que eu. Os seus defeitos - todos eles! - me dão um certo ânimo. E, agora, quando te vejo despida de todas as convenções, assim, na crua realidade, eu te enxergo pequenininha e insignificante. Mesmo com olhos azuis.

Por favor, me procure mais vezes!