
Quem mora sozinha tem de fazer suas compras sozinha - no sentido by yourself, não alone. Mas alguns amiguinhos imaginários me fazem companhia durante o percurso no supermercado. Um deles se chama “discurso ecológico” por parte de mãe e “politicamente correto” por parte de pai.
O detergente Ipê custa R$0,89 (para os clientes Pão de Açúcar). Tem um monte de opções de cheiros. Mais embaixo, há uma marca diferente que custa R$2,95! Dois e noventa e cinco! Mais que o triplo daquele que a Suzana Vieira teima em dizer o melhor... Fui conferir.
Hmmmmmm... É que aquele mais caro é biodegradável. Cheiro horrível, mas biodegradável. Mais caro, mas biodegradável. Qual eu escolho?
É claro que fiquei com o fedido-biodegradável. Eu não escolhi nada. Meu amigo imaginário é que enfiou no meu carrinho aquele tubinho fedido e eu saí achando que escolhi a coisa certa, saí me achando A cidadã, sem me dar conta de que a manipulação tomou formas e cores em cima da minha cabeça com tranças. Há maneiras de se moldar o que não percebemos. Há dez anos, por exemplo, essa coisa de quantidade de calorias não existia, assim como esses discursos ecológicos ou anti-tabagistas. Esses discursos que se vão construindo e se formando são tomados como verdade com o tempo, de maneira que, de tanto martelar, uma hora fazem tanto sentido que acabo achando que são meus, frutos da minha escolha.
Mas não há mais nessa vida cotidiana moderna sequer um momento de escolha. Temos amigos imaginários que povoam todas as nossas ações e transpassam todos os nossos pensamentos de forma muito inteligente. Não é necessário ter uma intuição fenomenológica, uma pegada hermenêutica ou uma apreensão espontânea da essência do tifo para ser afetado por essa doença. É simples assim: nascemos, assistimos Domingo Legal, Laços de Família, Big Brother Brasil e amadurecemos a idéia de que o bom é ver quantas calorias tem em cada porção de comida, é usar a mesma roupa que a Gisele, é vestir rosa porque é a cor do inverno 2007, é botar uma flor na cabeça para ficar igual a Íris, é queimar a testa com chapinha para alisar o cabelo, é deixar a filhinha transar com o namorado porque na novela das oito é assim, etc etc etc.
Há um sentimento de vazio enorme e impreenchível na sociedade atual: não adianta colocar 400 ml de silicone ou comprar uma Victor Hugo da nova coleção, porque toda essa engenhosa maquinaria da mídia se preocupa em tornar todas as coisas efêmeras e, antagonicamente, adiantar que a felicidade é o preenchimento completo e eterno do vazio. Qual é o problema do vazio?
O ser humano, como algo inacabado, jamais será completo; isso é um axioma. Não adianta buscar no prazer a completude infinita. Deixa a tristeza tomar conta, saiba conviver com o vazio. A cada mil lágrimas sai um milagre, diz Zélia Duncan. Não é pessimismo, juro! O que há é uma aversão a tudo o que faz sofrer, aversão a dor de maneira geral e, sequer se percebe que a dor é uma característica tão instintiva quanto os impulsos sexuais. Mas nããããããão. Se você fica triste, já vem alguém “por que você está com essa cara?”, “não fica assim, não”, “sorria para vida”, já vem um monte de mensagens em power point com fundos de uma natureza irreal para mostrar o quanto é necessário ficar feliz todo o tempo. E assim, sendo obrigada pelos amigos imaginários a ficar feliz, quando não se consegue atingir essa felicidade ininterrupta, finda-se por criar toda uma geração prozac, drogada e alcoólatra.
O processo midiático funciona em fazer um duplo freudiano do objeto-desejo. Um vestido Colcci é muito mais que o vestido material que está na vitrine: ele se duplica no imaginário e adquire uma forma sublime, o sujeito se projeta nesse imaginário e constrói um mundo de possibilidades fascinantes, para o qual o vestido abriria portas. Há uma manipulação inconsciente que eu não sei dizer de fato se é boa ou ruim ou para qual lado ela é boa ou ruim. Mas existe. E não há a mínima chance de se dizer que se comprou tal objeto porque gostou, como sujeito ativo do processo, mas antes, o objeto gostou de você.
E olha que eu falo aqui de coisas menos assustadoras como a compra de um inocente (?) vestido. Há por aí amigos imaginários “sujeira”. Aqueles que adentram, por exemplo, não o supermercado ou o shopping center, mas a política. Eu me preocupo é com a maioria e não com a minoria. Me preocupa (não consigo ser enclítica) é a maioria esmagadora que, por exemplo, reelegeu o Lula para presidente. E essa escolha não foi pela proposta educacional, pelo avanço tecnológico (e nem poderia, haja vista nosso excelentíssimo ministro da tecnologia que mal sabe falar em público) ou pelo conteúdo do PAC. É que o Duda fez um bom trabalho. A figura do Lula, como referência a um trabalhador, um ex-torneiro mecânico, “gente como a gente”, é o duplo freudiano que perdura no imaginário popular. Pode vestir ternos Armani, usar relógios caríssimos e só andar nos jatinhos particulares! Não adianta: a figura do Lula já está criada, há uma identidade que os amigos imaginários criaram ecoando dentro de cada um. A eleição é também uma compra. Parcelada em quatro anos. E os juros podem ser mais altos que a taxa de 12,5%.
(final do texto sem cara de final. meu protesto.)
(quem sabe casando cura... ninguém sabe o que procura)
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PS: ainda sobre o Ipê. Ao ler o rótulo do produto, dizia que também continha substâncias biodegradáveis. Só não estava estampado na cara do produto. Daí levei.
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- Posso segurar sua bandeja?
- É claro... Você prefere suco ou chá?

