
O café é a pior bebida do mundo. É mais desagradável que suco de tomate, é bem pior que leite azedo. Café me faz lembrar das plantações do século XVIII nas grandes fazendas paulistas, onde os donos de terra deitavam suas endiabradas escravas e colhiam seus filhos ilegítimos.
Acho que naquele tempo, quando os senhores queriam brincar com as negrinhas de quadris largos na terra vermelha, eles a chamavam para “tomar um café”. Devia ser o eufemismo da época.
De modo que esse senhor sempre se atrasava para jantar, pois tinha que trocar toda a engenhoca de roupas que se usava na época para que ninguém perguntasse o motivo de tanto barro. Ele fazia isso com uma notável eficiência. Não lhe sobrava um único grão de terra maldita por entre os pêlos pubianos, tampouco por debaixo das unhas. O trabalho era feito com afinco, porque, afinal, tinha-se lá tal carinho pela esposa ainda jovem e com ares frescos.
Ela era assim: apaixonada como menina desde que o Senhor a tomou por mulher. Casou-se nova como era de costume, de branco, como era de costume e destoava das outras donzelas da sociedade aristocrata porque não tinha vestido para festa. Nos bailes da corte, usava um conjunto camponês branco com fitas do Senhor do Bonfim, que ganhara de sua ama de leite. Não era boa e nem ruim porque o seu amor tomava sua alma por completo, a ponto de não poder coexistir dois sentimentos dentro dela. Era toda amor, paixão, doação.
Mas neste dia singular, quando o Senhor entrou pela porta que dava para a sala de jantar - onde toda a família e a criadagem o aguardavam -, uma certa estranheza pairou sobre a casa: na sua impecável polidez de brim branco reluzente e sem nódoa alguma, o Senhor tinha os sapatos ENLAMEADOS.
Ao entrar, sorriu de canto para a escravazinha que segurava o prato principal e fez uma trilha de barro no carpete de madeira que cobria toda a mansão.
Ela, ela mal podia se conter, porém esteve sóbria durante toda a refeição. Mas tinha o estômago ruim ela e vomitava tudo o que a negrinha tocava porque via embaixo de suas unhas um bocado de terra vermelha que esfarelava sobre o prato quando servia a senhora.
À sobremesa, tocou o telefone. Era para a senhora. Quando ela atendeu, não houve resposta. Ao fundo, alguém tocava para ela “Sweet Caroline”. Só quem tocava e que ouvia sabia o significado.
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PS: Ainda fiquei pensando nessa safadeza histórica do café. E, como uma aprendiz de lingüísta letrista cientista, me deparei com a palavra cafetina, cafetão – os senhores dos bordéis românticos. Essa coisa do café está mesmo incrustada de putaria.