22 Fevereiro 2007

...lentement

Eu vou começar a escrever devagarzinho porque perdi o rumo das coisas. Porque perdi a noção do vazio e perdi também a estética. Adotei a ética do amor. E ganhei uma prostituta de nome Anita, que grita para ser escrita, ela me grita.
E eu atendo.

Por isso vou escrever bem baixinho para ela não ouvir o barulho do teclado.
Eu sei que devo me desligar.
Eu sei que há um cordão umbilical.
Eu sei que devo fugir...

... mas José, pra onde?


[foto de http://micalli.fotoblog.uol.com.br/ - Lá tem um monte dessas maravilhas]

08 Fevereiro 2007

Eu não sei dançar tão devagar para te acompanhar



A vida é engraçada. Para a criança, o tempo não passa; quando, de repente, temos 50 anos! E o que sobra da infância cabe numa pequena caixa: uma caixa enferrujada.



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Como outrora havia sentido, estava só. Dentro dela era pura inveja.
Uma gueixa deixou cair uma fita de cetim na rua do mercado. Era a mesma gueixa que outro dia espiava pela janela. Aqueles olhos eram inconfundíveis. E havia um cheiro de peixe meio-morto-meio-fresco que serviu ainda mais para ludibriar-lhe a razão.
Tinha, enfim, se tornado uma prostituta invejosa e sozinha. Cada mililitro que lhe corria dentro das veias era pura solidão. O próprio coração, vejam só, entoava num uníssono inaudível: SOLI-DÃO! SOLI-DÃO! SOLI-DÃO!

Ainda na mesma calçada, resolveu pegar a fita. Era um belo tecido, de um laranja dourado que bem combinava com ela. Combinava bem com seus decotes mais ousados, dos quais não abria mão nem mesmo para ir fazer a compra do mês.
Não dividia quarto com nenhuma outra garota, morava só num quarto-sala-varanda porque tinha lá suas regalias por anos de bom serviço. Por três anos de bom serviço. Dessa forma, possuía sua própria geladeira e podia seguramente comprar tantos rabanetes quanto quisesse que todos ficariam apodrecendo juntos, intocáveis. Por fim, apanhou a fita colorida.

Era um final de Domingo, o que significava um descanso. Tinha para si deitar-se somente com um homem por noite. Era o pouco de princípio que conseguia segurar naquela vida sórdida noturna. Porque você bem deve saber: os princípios são todos moldáveis a uma certa inclinação pessoal. Cada um tem os seus princípios de acordo com aquilo que pode obedecer sem se machucar muito. A moral é assim também. Não há princípio nem moral que fique firme diante da sorte da vida. Para ela, as coisas eram assim. Mas é só porque era ela.
No Sábado, enquanto as outras se esbaldavam entre os homens, chegando a ter mais de 7 parceiros ( tal era a procura pelos bordéis de luxo na época), ela escolhia 1 e com ele fazia tudo o que sempre quisera fazer com um marido. Acordava com marcas no corpo e muita dor no pescoço. Mas estava satisfeita. Decidira nunca largar a vida mundana. Só o destino seria capaz de arrancá-la de lá. Cada pedaço de papel de parede tinha um pouco dela e ela era feita de tudo o que aquele quarto com janela para rua tinha.

Muito antes ela era uma garotinha de tranças encantadora. A primeira e mais bonita da turma. Eram essas lembranças que a orientavam, mas o simples fato de recordar era repudiado dolorosamente, tal a confusão da profusão de identidades. Preferia pintar as paredes a ir embora outra vez. Só o destino a levaria de lá e seriam preciso chuvas torrenciais para derrubar tudo aquilo que o bordel representava para ela. Seria preciso muito mais.

Colocou a fita no bolso ligeira e saiu receosa de que a gueixa fosse dar conta do perdido. Mas não deu, não. Na casa da gueixa havia fitas de tantas cores quanto quisesse e ela mal se dava conta da existência de Anita.

Abriu a janela do quarto como de costume e tentou vários lugares e posições e caras e bocas com a nova fita. Não lhe caía bem. E ela insistia, tola. Pintava os olhos e experimentava... Desatava os cabelos, fazia um coque, punha brincos, argolas, colares... nada, nada, nada. Certas coisas requerem uma certa dose de personalidade, caso contrário não cai bem.
As lágrimas caíam fácil. Tirou a roupa toda, de frente para o espelho. Diante dele tudo se desvanecia e o que se tornava exuberante eram as formas, os seios, a secreta curva pubiana, a pinta no seio direito... e a fita. Nua chorando a fita se mostrava perfeita.

Resolveu amarrá-la ao pescoço. As suas pontas dançando entre os seios. Tirou os sapatos dos pés, pisou o chão da cozinha, bebeu um copo de leite. Enquanto dormia, a fita lhe amarrava mais o pescoço, sufocava, apertava. Ela nem quis acordar. E foi assim durante todo o sono: a fita lhe enforcava a dignidade.
Ela se chamava Anita. Mas eu já disse isso.

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Quanto a mim, o que sei é que gosto mais de cravos do que de girassóis. E gosto ainda mais de cravos roubados.