Não me sinto bem apesar de os meus olhos mentirem descaradamente.
Há sempre em mim um certo sorriso confuso e um brilho desfocado no olhar sempre...
Uma vontade de sumir simplesmente; um medo horrível de deixar de ser vista.
É nessas horas que eu começo a fazer minhas loucuras inconseqüentes.
O vazio que mora cá dói, dói e seca embora tenha a nítida impressão de que sou uma menina de sorte. Será assim com todas as meninas-de-sorte?
O calor que se faz nessa época do ano me deixa de certa forma com o rosto desfigurado. O Sol incide forte e eu não me lembro onde deixei nenhum dos óculos escuros. É mais ou menos quando o calor se faz mais intenso que saio do trabalho em busca de comida, cama, banho. Encontro tudo isso na minha casa.
Até lá eu tomei uma van meio estreita com estofado de plástico, que me fazia sentir muito mais quente. Eu observo o suor escorrendo no corpo de todas as pessoas que estão em pé e é meio que uma dança, um valsa, um allegro. Tudo fica muito barulhento com a van lotada e os vidros abertos, mas algo no banco a nordeste me chama atenção.
Sentado no colo do irmão mais velho, estava um menino hipnotizante de uns 10 anos. Talvez um pouco menos, um pouco mais. Mas o que realmente importa é que ele me olhou e sorriu. Não foi um sorriso infantil. Aquela boca carnudinha era uma visão do céu, eu não esqueço... Era mulato. E não tirava os olhos de mim. Talvez ele tinha menos de 10 anos, mas eu disse que não importa. Acho que eram 8 anos. Eu não sei.
Por que é que não podia me transformar numa garotinha assim, de repente, e num repente morder aqueles lábios? Com toda a minha força...
Na hora de ir embora, ele pisou o meu pé.
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Assim, como dois animais do reino animal: ela, um mamífero; ele, uma ave. A cena eu não sei dizer, mas era diferente de um rancho afastado. Era em um castelo medieval no centro de São Paulo e ela se vestia como uma dançarina de can-can enquanto ele ficava sem camisa. A fotografia seria bella se fosse um filme. A luz caía bem sobre os corpos e ela deixava a janela aberta para poder se refrescar.
Fazia um silencio dentro. Era exatamente como aquele silêncio que se faz quando mergulhamos na água.
Aquela sensação de isolamento do mundo se dava e se deu. E ela se deu para ele. E ele se deu para ela. Isoladamente.
.aindaépouco,indaépouco,indépoco.
Quando o espetáculo acabava, a casa noturna tinha que se fechar, os barões todos da cidade seguiam o seu rumo, entravam no coche e seguiam pelas ruas até a porta de suas casas onde a esposa dormia, doce, nos lençóis brancos de algodão.
Ela seguia direto para o camarim, aquele luxo noturno se tinha todo esvaído por entre suas coxas e tudo o que restava, tudo o que ela via agora era luz, luz e os seus olhos borrados e a sua pele pálida e a sua boca vermelha e sua fome, fome. Não adiantava correr, tampouco se refugiar no porão. O banho não adiantava. O banho acordava e tudo o que ela queria era continuar dormindo, dormindo, acordar e dormir, sem interrupção, sem dia, sem coche, sem lençóis brancos, ela só queria descansar em algum lugar acolhedor.
De frente para o espelho, começa seu ritual de passagem. Aquela que se faz em frente ao espelho do retrovisor. Cada vez que a bucha passava na sua face, o pó saía sujando a água, ela se esquecia de algum momento mais particular. Todos os momentos particulares, todas as partículas de sentimento devem ser apagadas. A água tomava uma coloração de sangue porque isso rasgava a sua alma e todas as atrizes têm a alma à flor da pele.
O Sol nunca batia dentro do seu quarto porque ela tinha fechado todas as cortinas e o que se via era um leve notar de silhueta. Tinha uma bella silhueta ela. Boa de olhar. Curiosamente, abriu a janela e viu do outro lado uma gueixa.
As gueixas são as acompanhantes dos senhores ricos e desacompanhados. E só. O universo das gueixas se confunde com o universo das artes – seja a arte do canto, da dança, da conversa ou da sedução; não há apelos físicos.
Que inveja que ela tinha das gueixas! As gueixas podem ir ao cinema. As gueixas podem passear de mãos dadas. As gueixas recebem cortesias delicadas. As gueixas são convidadas para jantar. As gueixas recusam a oferta. As gueixas recebem cafuné quando acordam. As gueixas recebem girassóis. As gueixas são lembradas antes do dormir.
Ela não disse nada. Não tinha o que dizer. A vida dentro do cabaré era a sua própria casa. As rendas, os laços, o cetim, o rouge, o lápis preto nos olhos, o blush, tudo aquilo era ela. Ela não falou nada. Ela não sentiu nada. Era só um sentimento de vazio e sentimentos vazios tomam o lugar, aos poucos, dos sonhos dela.
Nessa hora, ela punha uma sapatilha nova e pintava a boca de rouge enquanto ele desabotoava o paletó.
-.enquanto ainda é cedo. 9 anos, 13 dias.