
Retratos íntimos baseados em http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI1241891-EI294,00.html
Oi. Oi para você também.
A ortotanásia consiste em tirar a vida de um paciente, diferindo-se da eutanásia somente pelo radical. Veja, na orto, os médicos não desligam os aparelhos de sobrevivência do paciente, mas retiram alguns tratamentos invasivos da rotina diária do tratamento, os quais eram somente paliativos. Na euta, que é mais honesta, desligam-se tudo mesmo e vamos para a partilha dos bens.
A eutanásia não se pratica. Ela é imoral e anti-ética. Afinal, o que é mesmo que se mata quando tudo ao redor só teima em apodrecer? A morte de um corpo é o nascimento de milhões de vermes e microorganismos.
Não se pode muito bem dar conta de uma vez da morte de algo. Se me fingir comme une micro-trottoir e sair por aí perguntando, eles também concordarão comigo. Concordarão que não é justo matar assim tão cruelmente alguém cheio de sentimentos. Porque o meu dó vem dos sentimentos que não se transformarão em vermes, tampouco servirão de adubo para as laranjeiras. Nada! Os sentimentos simplesmente morrem... Alguém já parou para chorar os sentimentos do defunto?
Eu trago na lapela do paletó grandes girassóis e deixo por lá assim, perto do fim do mês, que é quando a saudade mais aperta. Depois de um tempo não se chora mais pelos sentimentos do defunto: seca, a lágrima alimenta o orgulho.
Agora, século novo, novo jeito de matar sentimentos. Mas esse é devagarzinho: orto, como já se auto explica: correto, de boa intenção. Mas também não foi de boa intenção os milhares de judeus-churrascos? Acho que não mesmo.
Atente para que agora não há mais sofrimentos para o paciente, que antes tinha que ficar sendo picado todas as tardes tomando uma droguinha para que dure até o próximo infarto. Será que os que morrem de infarto têm seus sentimentos aprisionados no marca-passo? E eu, cujo coração mora no estômago, não quero nem saber onde é que ficarão meus impulsos, meu amor por lagartixas e minha completa falta de princípios...
Gosto mais de pessoas do que de princípios, e gosto de pessoas sem princípios mais do que qualquer outra coisa na vida.
Esses são os benefícios da medicina seculovinteumana: matam os sentimentos dos defundos bem de levinho, quase nem dói.
O meu retrato na parede envelhece a cada dia. Envelhecem também todos os girassóis [por que essa fixação por girassóis agora, mocinha?] e tudo vai, o tempo engole tudo. Bela puta daria o tempo! Vai ver o tempo foi aliado aí dos parceiros da orto, de tanto sentir-se culpado por ser mais cruel que a foice da morte.
Ou então o tempo, a morte, os sentimentos, o paciente são tudo uma coisa só e se misturam assim tão desfocado quanto o meu retrato na parede que envelhece. Veja! Caiu...
La ortotanásia. A arte de matar coisas inúteis.
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“Um dia olhará para seu amigo e ele lhe parecerá um pouco fora de foco, ou você não apreciará seu colorido, ou seja lá o que for. Censurá-lo-á amargamente, no intimo do coração, achando deveras que ele se portou muito mal para com você. Quando ele voltar a visitá-lo, você o receberá com frieza e indiferença. Seria uma pena, pois isto modificará sua pessoa, caro Basil. O que me contou é um verdadeiro romance, um romance de arte, pode-se dizer, e o maior defeito de um romance é deixar-nos tão pouco românticos!” – Oscar Wilde.
