De repente entrou um palhaço dentro do ônibus. Eu estava com a cabeça dependurada, morrendo de sono, mas acordei com ele gritando “Bom dia, pessoal!”. Mas ninguém respondeu. “Eu quero um bom dia bem alegre, vamos lá: bOOOOOOOOm diAAAAA!”.
Nada. Seis horas da tarde, aquele congestionamento horrível na av. Brasil. Quem era mesmo aquele cara que insistia em falar com as almas engarrafadas? Eu estava lá no fundão, mas ergui a cabeça bem alto e dei um sorriso, a fim de que ele se acalmasse, não saísse correndo com tamanha frieza do mundo, só para ele saber que eu estava prestando atenção nele. Ele não olhou para mim.
Começou com umas brincadeiras muito legais, daquelas de esconder as coisas e depois achar novamente (eu adoro!). ninguém ria. Ninguém dava muita bola. Eu estava lá olhando tudo e rindo, mas ele não olhava para mim. Deu dó. Deu muito dó. Muito dó de todas aquelas pessoas dentro do ônibus que não sabiam se divertir, que se misturavam com a palidez acinzentada do banco de ônibus e nem se mexiam. Tinha um menino com uma camiseta escrito em letras garrafais: QUIMICA – UNICAMP. Ele estava atrás do palhaço, assim, como daqui e ali, e não levantou os olhos nem por um momento das folhas que trazia consigo. Ele não teve coragem nem de ver quem era a criatura que estava gritando ao lado dele.
A cena me comoveu muito. Na verdade, até agora eu me sinto meio chocada, mas não acerto o motivo. Depois de mostrar uma porrada de fotos do trabalho que ele faz nos hospitais, pediu uma contribuição espontânea pelo seu trabalho. Todos no ônibus estavam esperando por isso, mas ele se alongou na história antes de chegar a pedir dinheiro.
Enquanto ele apanhava alguns 10 centavos ou um “num tenho, moço”, fucei desesperada na minha bolsa procurando um bilhete e uma caneta. Escrevi:
EU ADORO PALHAÇOS.
PARABÉNS PELO SEU TRABALHO!
E, junto, acrescentei uma nota de 1 real.
Ainda me sinto devendo alguma coisa para ele. Eu deveria ter respondido: “BoOOOOOOOoom DIAAAAAAA”. Mas não fiz.
Me perdoa, palhaço?