
Foi ainda nessa semana que me aconteceu uma dessas coisas que não podem acontecer com ninguém. Porque daí bate aquele agonia danada, aquela coisa de desespero, aquela solidão.
Tenho um problema que me deixa preocupada. Eu esqueço muito sobre as coisas que eu faço. Nunca sei o que fiz, comi, e, principalmente, onde deixo certas coisas. Tudo bem esquecer os óculos no balcão da loja, mas só nesta semana perdi 300 reais, um cartão com 100 de ônibus, a chave do meu armário e mais outras coisas que eu esqueci agora. Isso é terrível. Mas tudo bem, pelo menos eu aprendo a ser mais organizada.
O fato é que o cartão eu perdi em Barão Geraldo, quando fui procurar um lugar para morar. E, como não tinha dinheiro na carteira, era a minha única forma de voltar para casa. Mas eu perdi...
Só fui descobrir que tinha perdido quando estava dentro do ônibus indo para o Terminal. Todo mundo viu que eu tinha perdido porque fucei minha bolsa até decorar tudo o que tinha dentro. Assim que perdi as esperanças – e o motorista já tinha chegado ao terminal – fui falar com a cobradora.
- oi moça, eu perdi meu cartão. Será que eu posso descer?
- Vai ter que falar com o motorista (cara de bosta)
- Oi... eu perdi o meu cartão, será que eu posso descer? Eu não tenho grana para ir para casa.
- Se perdeu o cartão, vai ter que pagar no “cascaio”.
- Então vai tomar no cu seu filho da puta.
Meu deus, quanta humilhação por causa de dois reais. Eu não sabia que o mundo, essa coisinha insignificante girasse ao redor de dois reais.
Saí do terminal com uma vontade enorme de chorar. Afinal de contas, quem foi mesmo que me disse que a gente recebe tudo quanto dá? Eu sempre ajudo a galera que pede no busão. E foi aí que eu tive a idéia de ir pedir grana para dois velhinhos sentados no banco da praça.
- Dá licença, senhor. Eu perdi o meu cartão de ônibus e estou sem grana. Vocês não têm 2 reais para me dar?
- Rá menina! Eu saí de casa sem dinheiro! (com tom de braveza)
- Obrigada.
É. Acho que essa teoria aí está furada. A questão é que quando você dá, fica sem. Moral da história, não seja burra: guarde seu dinheiro para quando precisar.
Aí que eu comecei a chorar mesmo (por outros motivos amorosos também. Porque a coisa é assim, a primeira lágrima é inocente, mas todas as outras tem o seu motivo. E ele pode ser bem variado). Óculos escuro no rosto, vamos procurar esse cartão.
O fato é que tive animo para andar até perto da Unicamp, depois desandei a chorar e liguei para o Victor vir me salvar. Ele me trouxe dinheiro, carinho, atenção...
É incrível como esse mundo é formado por seres tão diferentes. Por que será que o motorista não me ajudou? E nem a cobradora? E ninguém desconhecido? Por que é difícil ajudar quem não conhecemos? Sério mesmo, não é fazendo uma de tal, mas dinheiro é essa merdinha mixuruca que a gente gasta com prazeres da vida. Eu sinto prazer em ajudar os outros.
Quando o Victor me trouxe a grana, eu queria ir até aqueles velhinhos malditos e falar:
- Olha, vocês não têm dois reais??? Caralho, então toma 5! E jogar na cara dele.
Palhaço! Eu não tenho cara de assassina, drogada, nem nada! Se fosse alguém mais decente, teria me ajudado. “Espera um pouco, eu vou te ajudar. Conheço uma senhora X que pode te emprestar...” Mas nããããããããããããããããããão.
Qualé!!!!!!!
Pelos poderes de Greyscowwww...
Eram dois reais! Estou inconformada.