
A coisa é mais ou menos assim:
A face roxa é a mocinha; a face branca é o rapaz. Os dois se conhecem num canto escuro e se entrelaçam as pernas enquanto ainda é tudo novo.
Os olhos são novos, a comida é nova, até o cheiro é aquele de coisa nova, de evangelho, de lírios matinais. O rapaz brinca por entre os cabelos da mocinha, que por sua vez, brinca com o nariz do rapaz. A parte do corpo varia muito. Mas querem muito se conhecer. E fazem disso o seu parque de diversão.
Até que chega um tempo, tempo de depuração, onde não se sabe muito bem quem é o rapaz ou a mocinha da história, tanto que as duas faces já se misturaram. E nesse misto de identidade, o roxo é pálido e o branco perde a sua candura.
Com o tempo, o amor perde a sua maiúscula maior. Veja aquela teoria da caverna de Platão, que resumida, fica mais ou menos assim: “todos os homens estão dentro de uma caverna acorrentados e tudo o que vêem e sentem são apenas sombras projetadas nas paredes da caverna. Dessa forma, o amor que sentimos na verdade não passa de uma sombra, todos os nossos sentimentos são apenas sombras projetadas, não é o real. E cabe a cada um se soltar das correntes e ir atrás dos Sentimentos reais”.
O fato é que, com o tempo os homens, por questão de inércia, adentram na caverna de Platão, e ficam lá por pura e espontânea vontade. Não se sabe conviver com o Amor verdadeiro por muito tempo, porque todo ele é composto de novidade: quando ela se torna usual a ponto de se confundir com a novidade do outro é porque as duas faces se tornaram uma só. E isso é triste.
Perde-se o frescor da manhã e se vive sob o calor preguiçoso do Sol da tarde. É verão.
Talvez tudo isso seja mesmo, o amor, só para relembrar.
E, então, para tentar animar a situação, começa-se as brigas de ocasião. É mais ou menos assim: o roxo fica brava por sabe-se-lá e o branco, sentindo-se culpado a enche de mimos – ou pelo menos é isso que se costuma fazer. Quando já não tem mais ânimo para mimar, é porque o fato em si já está encerrado. Mas voltando...
O roxo, vendo o quanto é bom ser mimada, aproveita da situação e faz o seu deleite do mês. Mas é nesse exato momento que o branco, irritado e impaciente, inverte a situação e torna-se a ser o bravo da história. E a roxa, assustada, é quem o mima dessa vez. E nesse círculo vicioso não há vencedor algum. Só... desgaste.
Será que esse brinquedo de corda, que é o coração, é movido somente pelo novo? Ou será ilusão quando nos sentimos felizes?
Eu juro que eu não queria ter descoberto tudo isso. Na verdade eu acho que já sabia. Mas me esqueço toda vez que fito uns tais olhos...
Olha, no livro de Goethe, Werther descreve o amor da maneira mais encantadora e melíflua que já vi. Atente para o detalhe que, quando escreveu isso, Werther estava no COMEÇO da sua paixão.
“Foi o mais magnífico nascer do sol. A floresta úmida e os campos frescos! As nossas acompanhantes adormeceram. Ela me perguntou se eu não queria fazer o mesmo; poderia ficar despreocupado com ela. “Enquanto vir esses [os dela] olhos abertos”, disse-lhe e fitei-a “não há perigo de fechar os meus”. Mantivemo-nos assim até a sua porta (...). Deixei-a, então, pedindo licença para vê-la nesse mesmo dia; ela consentiu e eu fui... e desde então, o sol, a lua e as estrelas podem fazer os seus movimentos como bem entenderem, já não sei mais quando é dia ou noite, e o mundo inteiro se dilui à minha volta.“Quando a face roxa mostra o texto para a face branca, a fim de resgatar alguma aurora perdida, esta não lhe dá muita atenção. É claro, já está no FIM.