20 Janeiro 2006


Mal seus pêlos pubianos tinham começado a nascer, já raspava aquela pequena penugem com gilete, trabalho este que às vezes custava a integridade da sua pele.
Chamava-se Cátia, e se dizia Kátia Flávia, pela música da Fernanda Abreu. Na verdade ela era uma Lolita e era assim que costumava chamá-la. Punha-se a minha frente e imitava a dança da Garota Carioca com bocas, bundas e requebrados. Eu ali, encantada, ficava parada diante da cena que não era em nada promíscua, apenas tinha dentro de si uma sensualidade inerente às meninas da idade dela. E eu só olhava, porque com mais de dezoito anos eu ainda via uma aura sacra naquela boca manchada de batom vermelho. Os dentes estavam manchados também, o cabelo comprido embaraçado e o nariz bem queimado de Sol.
Kátia Flávia é uma louraça Belzebu provocante, uma louraça Lúcifer gostosona, uma louraça Satanás gostosona e provocante que só usa calcinhas comestíveis e calcinhas bélicas, dessas com armamentos bordados.
Eu juro que ela só tinha 14 anos. Aqueles olhos me encarando naquela cabelaça loira, aquele remelexo descompromissado, aquele menina vadia e pia, tão doce e provocante, tão menina e tão mulher... Eu não podia ficar à margem do seu domínio. Quando a música parou, ela fez como se agradecesse a um grande público os meus aplausos. Aquela menina tinha nascido para o sexo vulgar, era perfeita para uma noite perigosa e incandescente. Aquela bota com meias até os joelhos me fascinavam. E quando ela resolvia trançar o cabelo, então? Eu me deleitava na beleza dela, e escrevia tantos poemas, tantos contos, tantos textos que ela sequer conseguiria entender. Sabia mesmo era tomar sorvete daquela forma sensual. E eu a levava até a sorveteria todos os dias.
Era uma ex-miss Febem, eu diria depois daquele dia de cão, quando disse que amava ela. Cátia soltou aquele sorriso bonito, aquele monte de dentes na boca, aquela língua quente e disse que me amava também. Depois disso eu não conto porque tenho medo da polícia.
No final, bateu à porta uma outra garotinha, entrou na cozinha como se fosse íntima da casa.

Toda nua!!! Toda nua!!!/Toda nua!!! Toda nua!!!/Get out!!! Get out!!!/Alô polícia/Eu tô usando/Um Exocet/Calcinha! /Um Exocet/Calcinha!

18 Janeiro 2006


Ele foi-se embora como todos um dia se foram. Tomou um gole de pinga, bateu com o copo na mesa da cozinha, exprimiu uma interjeição que eu não sei se por causa da pinga ou da simples conotação de tristeza. Chapéu na cabeça, partiu por esse sertãozão todo, dizendo que encontraria o Velho Chico.

Quando passou pela porta que dava para fora do nosso humilde casebre, eu não acreditei. Aquele caboclo indecente que me tomou por mulher diante de meu pai e assumiu comigo as obrigações do matrimônio titubeava ali na frente, indeciso das suas próprias decisões.

Eu me lembro ainda daquele dia, na época das chuvas, quando ficamos encantados com a quantidade de água que São Pedro desabava em cima de nós. Não havia trovão nem raios, porque no sertão não tem dessas coisas. Mas quando me tomou nos braços, debaixo daquele véu sagrado, dentro de mim eu senti estremecer. E fingi, tão boba, que estava me casando, com o véu e tudo mais.

Depois chegou a época da seca e já não podíamos mais nos preocupar com o ar abafado do sertão que tornava nossos corpos úmidos e tão libidinosos.
A plantação estava rala e foi aí que ele teve a idéia de partir em busca de salvação. Não entendi porque não me deixou ir com ele.

Já faz dois meses que ele se foi. Acho que não volta mais.

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Disparada
Zé Ramalho
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar

Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não,ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar
Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu
Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei
Então não pude seguir valente em lugar tenente
O dono de gado é gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar.

13 Janeiro 2006

Pos Subscritum


Olha, eu juro que eu não queria estar comendo tanto sorvete muito menos tomando tanta coca-cola com gelo. Mas é que hoje eu fui tirar o meu dente de leite que estava mole, era o último ainda bem, e ficou um rombo na minha gengiva que sangra toda hora. Adeus meu regiminho! Mas não é por isso que estou sem sono. Olha, são duas horas da manhã, veja bem, e eu não consigo dormir nesse calorão que se faz aqui dentro de mim.
Amanhã tenho que acordar cedo, ir ver um curso de teatro que sempre quis fazer, no Conservatório. Acordarei péssima.
Tirar um dente não é nada agradável, principalmente depois dos 14. Dente de leite com 19 anos é demais! A dentista é uma graça. Acho que terei de usar aparelho. Saco! Esses probleminhas de pré-adolescente com 19 anos me torram muito! Sou quase uma adulta (e falando assim, pareço ainda mais uma pré-adolescente).
E tenho problemas como tal.
Será que vou passar na faculdade?
Se eu passar, como vou trabalhar?
Se não passar, o que farei?
Se eu conseguir estudar e trabalhar não dará tempo para aproveitar os cursos extras da faculdade.
Se eu parar de trabalhar, fico sem grana
Posso arrumar um emprego na facul, mas como saberei isso agora?
Como começarei a trabalhar se eu não sei por quanto tempo ficarei no cargo?
E meu curso de teatro? Como arrumarei tempo trabalhando? Como pagarei o curso se não trabalhar?
E ainda tem o trabalho na ONG, que eu preciso conciliar com tudo.
As minhas provas começam domingo e estou aqui sem paciência.

O que sinto é estar num universo de diversas possibilidades entrelaçadas, em que cada coisa depende de outra e por ser tão conciso, não consigo dar prioridade a nada. Crise existencial agora não, Carolina. Agora não.
Eu perco o rumo quando fico sem chão. Ainda não sei voar.Vou tomar um banho gelado.

05 Janeiro 2006

A Amante Mentecapta

Quando a menina entristeceu,
Pôs-se de bruços no altar...
Pediu a Deus do céu
Que tudo fosse consertar.

Entre as lágrimas que perdeu
Banhou-se toda em perdoar...
Queria subir ao céu
Começando pelo altar...

E, no desvario seu
Voltou a se enamorar
Daquele que amargava fel,
Mas a recebia para amar...

E como o dia amanheceu
Botou a tarefa de embelezar
Os olhos e a boca com mel
Para o amado poder beijar...

Grands Yeux - Vestida de Alphonsus de Guimaraens