
Sim, meu cabelo não é liso, mas mesmo assim sigo em frente. Não olho para trás, nunca. Foi o que a vida me ensinou nesses quase vinte anos. Não conto essa história para ninguém. Sempre me digo “a garota mais acontecida da face da Terra”. Já não sou assim tão garota, mas continuarei me chamando de garota até minha morte por volta de “cento e muitos”.
Sempre me senti verdadeiramente à vontade na vida. Mas minhas coisas nunca parecem realmente minhas. Odeio tudo que está na moda. Não assisto a muitas novelas nem programas de auditório. Estou mais para Dostoevsky que pros contos românticas de Veríssimo. Mais para um Teatro Poético que para Broadway. Nunca quis ir para Disney (e fui); quero mesmo é conhecer Minas Gerais (só conheço Uberlândia). Sei todas as falar de Cinderela. Não acreditava no amor, mas suspirei inúmeras vezes assistindo Amélie Poulain – e de vez em quando sinto que sinto. A primeira vez que experimentei chocolate quente foi depois de um desenho da mãe urso.
Sou fã da Drew Barrymore, Marcelo Taz, Elis Regina, Chico Mendes, Greenpeace, Caetano Veloso entre tantos outros. Detestei Cazuza depois do filme, quando começou a tocar em todas as rádios do planeta e os refrões de “o tempo não pára” eram cantados pelas “patricinhas ignorantes” que tanto repudio.
Viajei, mas nunca me senti em casa. Faço o que posso, mas nem assim achou que vivo o suficiente. Sempre falta algo. Alguém. Tenho queda por pessoas inocentes com coração puro. De fato me apaixonei por alguém assim.
Fui muitas vezes a melhor. E também a pior. Nunca fui mediana. Geralmente gosto de animar todo o mundo, mas quando estou de TPM fico no meu canto sozinha (embora normalmente me sinto assim sem motivo). Já tentei de tudo: tocar instrumentos, pintar, matemática, cozinhar, enfermagem. Nunca tive paciência e dedicação para levar em frente. Gosto de escrever.
Não tenho medo de viver. De virar brega apenas por citar a palavra “...”. Sou feliz por opção (embora nunca admita). Tentar mudar é o segredo da felicidade. Como as pessoas podem ser felizes com tanta merda acontecendo no mundo? Assim.
Nunca estou satisfeita e sempre me sinto culpada ao menor traço de tristeza. Tenho sempre que elogiar todos esses seres que se divertem com seus prazeres mundanos. Brinco de comidinha com meu bicho-pato.Não perco um capítulo da novela-vida dos meus bons amigos. Fazia yoga e choro nos filmes melosos. Acho lindo os quadros de Dali. Uso roupas confortáveis e floridas e leio a Bíblia porque me divirto com os caras que viviam 500 anos. Sem compromisso e tampouco fé. Enfim, estou bem. E sim, meu cabelo ainda não é liso.