
Conforme o Natal se aproxima, aos poucos me vêm à lembrança os contos de Natal. Os contos de terror de Natal, óbvio. Ainda falta algum tempo, mas alguns dotes são oferecidos àquelas que mantêm as palavras sagradas, e eu me fiz merecer... acuratus. Assim fiquei, e embora seja um pouco desconfortável, de uma forma ou de outra é um gesto de proteção formular algumas frases, ensaiar algumas caras para que tudo saia da forma mais espontânea que só um texto de Brecht poderia abraçar.
Nos contos de terror de Natal há um barco pequeno, de motor, embora no tempo os barcos com motor não eram muito conhecidos e costumavam ser usados apenas por aqueles que não tinham nenhum título de nobreza para escapar da Inquisição ou para fugir de algum saqueio de baixa carga, de baixo valor. Uma coisa interessante é que a palavra “roubo”, no seu sentido figurado, significa “encantamento’.
Não se tinha o costume de fazer fotografias em alto mar, tampouco essas outras coisas que foram inventadas depois, mas sabe como são as indiscrições das gentes, e mesmo que não queira saber, mas no caso eu queria, e muito, de vez você fica sabendo do dia, que era dezenove, e do sobrenome de todos que estavam no barco. Tinham alguns, como eu disse, bem desparentados de qualquer tipo de nobreza, de leste a oeste, mas V. Forester estava lá, com seus dentes amarelados, e isso bastava.
Era uma viagem marcada de antemão com todas as sutilezas do não-dizer, com todas as desculpas de boa conduta social, com todas as imposições de histórias antigas. E a cerveja dentro do barco era de péssima qualidade, embora ninguém o percebesse. Como eu disse, roubo é também encantamento.
Os demônios dos mares, descompassados em seus leitos, deixavam passar aquela embarcação sem nenhuma onda, sem nenhuma chuva, sem nenhuma tormenta ou vento que pudesse fazer com que o desviassem do caminho. Não era um caminho da perdição, mas dito de outra forma, o caminho da perdição não existia mais, porque se podia ir e voltar sempre que se quisesse, assim: era só ser convocado em particular.
A última coisa que eu pude saber do conto é que todos voltaram de onde partiram e que todas as marcas no corpo foram apagadas no tempo do retorno. E que todos usavam umas vestes flutuantes, que mais pra frente disseram coletes salva-vidas, menosprezando todo o trabalho dos demônios para mantê-los secos e sem mareagem.
Há outros contos, todos assim recortados, fazendo precisar de um preenchimento no meio que alguns conseguem dar forma, dar contorno, dar cor – da pior forma possível, óbvio. Eu nunca disse que as mulheres são iguais aos homens e eu nunca vou dizer. Mas a mulher artista, no caso, sou eu, e tudo faz muito sentido com as minhas tintas, com os meus aglutinantes e carvão apontado. A arte também é uma forma de interpretar; não a obra pronta, acabada, livre para o público; mas a matéria em si no momento da criação, quando cada pincelada na menor infinidade do tempo se transforma de matéria para conceito. Isso porque eu nem vou falar de amor.
Está longe, mas logo vem o Natal e é claro que eu tenho que ser a heroína da história; não aquela que vicia, a outra. Mas nos contos de Natal não há heróis e o sobrenatural toca o real – eu estou falando dessa região de atrito. Lá o que dá medo não é o fato de todos caírem no mar, ou de todos morrerem de coma alcoólico, ou de escorbuto, ou de misturar as águas do lastro, isso é banal e acontece todos os dias.
Os demônios podem não ser totalmente reais, mas dão medo. E cantam uma música, pedem um compasso, dois pra lá ou dois pra cá, ou tudo junto, como preferir. Dança. O medo é da dança e de tudo o que se descobre depois, que ela pode destruir o que já está mais que destruído.
Os escritores dos novos contos de Natal estão todos a postos. Haverá como de costume uma feira em Wall, o sobrenatural e o mundo real vão compartilhar a mesma atmosfera, pesada, mas esclarecedora, porque é na diferença que as coisas tomam a forma e se completam e se preenchem e se contornam e se pintam (ou se desbotam, depende se você olhar de dentro ou de fora de Wall). Principalmente em Wall, onde as coisas são exatamente como elas são.
- E você está indo pra Wall, assim, com o pé atrás?
- Bom, depois de tudo o que já aconteceu... eu...
- Talvez esse será o motivo pra tudo acontecer como sempre aconteceu novamente.
- Ah, ta bom. Agora eu sou a culpada?
- É. Acho melhor você pensar diferente.
Era um misto de ternura e melancolia: “Para onde o senhor for...”. De mãos dadas, se aproximaram da entrada do muro. Conforme ele ia chegando perto de Wall, se lembrava de visitar os pais. “E depois nós vamos visitar V. Forester”. E ele quase conseguia sentir na boca o gosto da melhor cerveja do Sr. Bromios. Não havia o que eu pudesse negar ao jovem jogador, não depois dos meus juramentos sacerdotais, e, como eu disse, sou boa em manter a palavra quando quero. [Talvez eu ganhe outro dote.]
Era preciso fazer silêncio para que em nada interferisse naquela atmosfera devastadora da cidade, onde eu não passo de um elemento caído do céu por uma aposta do destino jogador. Embora interrompida pela indiscrição do “malévolo olheiro”, ainda naquela noite a “heroína sem medo” pôde “desfrutar de descanso reparador”.
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Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
(Brecht)